Semana passada, minha irmã quebrou um pote de cristal que minha bisavó nos deu de presente. Ela e minha mãe colaram o pote, e agora ele tem uma rachadura que o atravessa por inteiro, quase o dividindo pela metade.
Minha irmã ficou bem triste na hora. Mas a minha mãe viu a situação de um jeito mais positivo. Ela disse que o pote quebrado é um sinal de que ele teve história. Nas palavras dela: “um pote quebrado é um pote que foi usado, e um pote usado é um pote feliz”.
Engraçado pensar que a rachadura pode ser um motivo de felicidade para uma peça de cristal. Como uma espécie de reconhecimento pela sua jornada dela e por aquilo que ela passou.
Minha mãe quer pintar por cima da rachadura com tinta dourada. É uma forma de replicar o kintsugi, uma técnica japonesa de restauração de cerâmicas que usa cola misturada com pó de ouro. Em vez de tentar disfarçar as falhas da peça quebrada, o objetivo é deixar as emendas expostas, valorizá-las e revelar uma beleza nova e única.
Tentei ao máximo fugir do clichê do kintsugi nesse texto. Mas ele é, realmente, uma imagem poderosa. Todos nós temos defeitos e imperfeições; e, mesmo assim, podemos ser belos e completos – não escondendo essas falhas, mas valorizando-as.
Do mesmo jeito, uma peça restaurada com o kintsugi mostra as suas imperfeições “não como uma falha, mas como uma condição de tudo que está vivo”.
A imperfeição é uma condição de tudo que está vivo. Apesar disso, muitas vezes insistimos em esconder, com vergonha, nossas cicatrizes – ou, pior ainda, deixamos de viver com medo de quebrar.
Segundo minha mãe, a rachadura no pote mostra que ele é feliz. Então, por que nós, seres humanos, esperamos não ter cicatriz nenhuma? Somos pessoas reais, que erram e acertam, e não peças de cerâmicas que ficam guardadas no armário. Por que esperamos uma vida perfeita para finalmente sermos felizes?
Ninguém É Perfeito, escrito pelo professor e terapeuta Luís Mauro Sá Martino, é, nas palavras do autor, “uma celebração das emendas” que mostram nossa humanidade – tanto que um pote remendado com kintsugi está na capa do livro.
“Diante da tirania da perfeição, foi escrito para lembrar que a vida normal é imperfeita. Se fosse perfeita, não seria vida humana, mas estátuas frias de mármore em uma exposição. Saber que a vida perfeita não existe é o caminho para encontrar a vida possível”, escreve.
O livro usa, principalmente, conceitos das ciências sociais, mas também traz contribuições da filosofia, psicanálise e outras fontes, com histórias do cotidiano do autor. Ele explora como a propaganda da vida perfeita ajuda a criar uma geração de narcisistas deprimidos, obcecados com um ideal de perfeição inatingível.
Mas ele mostra caminhos para lidar com esse problema pautados em três eixos: deixar de lado a ilusão da vida perfeita, respeitar os próprios limites, e se tornar quem se é.
A ideia de que existe uma vida perfeita já contaminou muito a nossa relação com a felicidade. Luís Mauro quer te mostrar como, parando de se apaixonar por ilusões, você pode amar a realidade.
“Enquanto esperamos por essa vida perfeita, o que fazemos com a vida que temos?” É preciso fazer as pazes com as nossas imperfeições e ser feliz hoje. Conheça, abaixo, um trecho da obra. Boa leitura!
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Capítulo 2: Perfeição traz felicidade?
Há muitos anos, um amigo me pediu ajuda para organizar a mudança de sua família. Nós nos conhecíamos desde o ensino fundamental, e era a primeira vez que eles se mudavam. O apartamento novo não era muito longe, mas havia uma enorme quantidade de coisas para empacotar – toda uma vida em um caminhão de mudanças.
Começamos numa manhã de sábado, bem cedo.
Eram umas dez da manhã quando meu amigo me chamou para ver uma caixa. Estava fechada e bem embalada. Dentro havia um traje de mergulhador completo, com pés de pato, máscara, bocal e mais alguns itens. Novo, ainda com a nota fiscal, com data de dez anos antes. Estranho: até onde sabíamos, ninguém de sua família praticava mergulho. Fomos até a sala, onde seu pai estava embalando outras coisas.
Ao ver o equipamento, sentou-se sobre um banquinho ainda não empacotado e pegou o traje de mergulho com cuidado, embora um pouco desajeitado – é mais pesado do que parece.
— Era para a gente mergulhar… — disse ele. — Fiquei guardando para o dia que a gente tivesse dinheiro, eu ia ter um barco e a gente ia mergulhar. Aí o tempo foi passando, fui deixando, vinha uma coisa, outra, e isso ficou de lado.
Ninguém falou nada.
Perdemos o contato, mas sempre me recordo dessa história quando o assunto é a expectativa de uma vida perfeita com a qual parecemos sonhar. O pai do meu amigo estava guardando sua felicidade numa caixa.
A felicidade como fim
De todos os produtos contemporâneos, a felicidade é provavelmente o mais lucrativo. Está em todos os anúncios, de marcas de carro até investimentos bancários; no discurso de políticos em época de eleição, quando prometem uma melhor distribuição da felicidade; na publicidade de comida, quando a primeira mordida equivale a um minuto no paraíso.
Está nas primeiras palavras da Constituição dos Estados Unidos, na qual a busca da felicidade aparece como um direito inalienável do ser humano, ao lado de vida e liberdade. E, claro, povoando filmes de Hollywood, séries de TV e reality shows. Prometem, de alguma maneira, prover os meios para ser feliz, quando não se apresentam como a própria felicidade.
Há uma parte dessa história, no entanto, sobre a qual não se fala. Ela caminha ao lado das imagens da felicidade como uma sombra que desaparece quando você se vira para olhar melhor. Como um ruído surdo, é quase impossível de detectar, mas está sempre lá. Assumem a forma de três questionamentos: o que é a felicidade, quais suas condições e possibilidades.
Uma coisa podemos aprender vendo as imagens que chegam até nós: a felicidade é colocada como um fim a ser atingido. As coisas são o meio para alcançá-la. No discurso contemporâneo, a felicidade sempre vem depois. Depois de conseguir este ou aquele bem, depois de conquistar o amor da sua vida, conseguir seu apartamento, falar inglês ou comprar um carro. O esforço para obter esses meios é compensado de antemão pela expectativa do prêmio no final: a vida perfeita da felicidade.
Mas qual é, na prática, a felicidade da vida perfeita que nos vendem todos os dias?
Em primeiro lugar, atualmente existe uma equivalência, às vezes sutil, entre felicidade e perfeição.
No discurso contemporâneo, só é possível ser feliz preenchendo toda uma série de condições relacionadas a uma vida perfeita. Ter um corpo deste ou daquele estilo, dirigindo determinado carro, conseguindo um relacionamento com a pessoa ideal. Essa equivalência tem uma face perversa: ela mostra a imperfeição como sinônimo de infelicidade. Essa perspectiva limita a ideia de felicidade e a conecta permanentemente a alguma condição, como a compra, a posse, a presença do outro.
As pesquisadoras Valerie Robinski, Angela Hosek e Nicole Hudak mapearam como essas mensagens começam a atuar ainda na infância, atrelada a uma escala de valores – no caso de seu estudo, a preocupação com a perfeição do corpo. Uma de suas entrevistadas se lembrava de ouvir da mãe, quando era pequena, “é melhor ser uma magrela deprimida do que uma gorda feliz”.

Seja qual for seu esforço nessa direção. Nossa sociedade aprendeu a adiar indefinidamente o momento de ser feliz, esperando a vida entrar em um estado de perfeição.
“Certo, então como vou ser feliz agora, lidando com tantos problemas?”, você pode, corretamente, perguntar.
Existem várias respostas.
Você pode aguardar pacientemente o momento de ser feliz, esforçando-se a cada dia para conseguir os meios para alcançar essa felicidade, consequentemente se frustrando no começo da noite ao perceber que esses meios desaparecem antes de alcançar um estado mais feliz.
É importante fazer uma separação: não confundir felicidade com bem-estar. Ter boas condições materiais, levar uma vida digna, não precisar se preocupar se terá o que comer no dia seguinte e situações similares estão ligadas ao bem-estar. Isso inclui conforto físico e condições para formular e realizar projetos. Bem-estar não garante felicidade, embora ajude. Como dizia um amigo meu, “se é para ficar triste, prefiro que seja em Paris”.
Para quem não tem essa opção, chegamos ao segundo ponto: ser feliz com os problemas.
A frase não é das mais simpáticas e vai na contramão dos discursos que prometem a felicidade no fim do arco-íris, quando todos os seus problemas estiverem resolvidos. Por uma razão simples, mas difícil de enunciar: eles não vão se resolver de maneira definitiva.
“Credo, vou ler outra coisa mais otimista” pode ser a reação de alguém mais apressado, e completar com algo como “você está dizendo que não é possível ser feliz”.
Ao contrário.
Esse modo de entender as coisas procura deixar de lado as ilusões de um otimismo impossível para se apoiar no terreno mais sólido do enfrentamento das situações. Aprender a olhar a realidade por perspectivas diferentes, às vezes mais duras, evita um movimento muito mais triste, a desilusão, quando você nota que seu castelo sólido era um devaneio. A desilusão só existe quando, anteriormente, houve uma ilusão criada.

Fazemos isso o tempo todo e, em si, não é errado – não se trata de um julgamento moral. Até certo ponto, precisamos de ilusões e fantasias para seguir em frente. A vida poderia tomar rumos sombrios e amargos se não cultivássemos sonhos, objetivos impossíveis, realidades diferentes daquela na qual vivemos.
Mas não é difícil ser levado de maneira inconsciente a pautar sua existência na busca incessante de uma felicidade nunca boa o suficiente. Em seu livro Pertencimento, a filósofa Bell Hooks lembra-nos deste aspecto: “A vida é repleta de picos e vales, triunfos e adversidades. Muitas vezes, sofremos por querer viver em um mundo somente de vales, sem lutas ou dificuldades, um mundo plano, reto, consistente”.
Ao longo dos anos, conheci várias pessoas que colocavam sua felicidade em ilusões cuidadosamente cultivadas, como plantinhas que você rega todas as manhãs. A principal, sem dúvida, era ser feliz mediante a conquista de um meio qualquer. Outras ficavam esperando a resolução de um problema para, aí sim, “ser feliz”. Como problemas não deixam de surgir, a felicidade era sempre adiada – como no caso do pai do meu amigo, indefinidamente esperando a hora de mergulhar. Por isso é importante pensar, em termos quase preventivos, até que ponto esse tipo de imaginação faz bem. Existem ilusões negativas que às vezes cultivamos em troca de um conforto momentâneo. No longo prazo, porém, elas podem se revelar um problema.
Colocar condições para a felicidade (“só vou ser feliz se conseguir isto”, “só serei feliz com aquela pessoa”) é adiar indefinidamente um estado. Essa busca pela felicidade pode, em alguns casos, se tornar um caminho para o perfeccionismo: só algo perfeito me deixaria realmente feliz. Como nada é perfeito, é preciso encontrar outro caminho para a felicidade.
Essa ideia está longe de ser nova.
Dois mil e quinhentos anos atrás, o filósofo grego Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco, já alertava para o fato de atrelarmos a felicidade sempre a um meio frágil, que poderia rapidamente desaparecer e levar, com ele, a possibilidade de ser feliz. O ponto, para ele, era lembrar que a felicidade é um estado ligado a cada uma e cada um de nós, que não pode ser dependente das oscilações dos fatores externos. Não posso esperar conseguir alguma coisa para ser feliz: a felicidade não espera, ela existe enquanto cultivo todos os dias.

Um outro grupo de filósofos, partindo de um pressuposto um pouco diferente, desenvolveu também uma série de reflexões nesse sentido.
Conhecidos como estoicos, eles mostraram como era possível cultivar a felicidade sem esperar a perfeição. Ou, dito de outra maneira, uma felicidade possível e livre de condições. Há vários representantes do estoicismo na história da filosofia, mas, em linhas gerais, esses pensadores mostravam que algumas atitudes poderiam ajudar a quebrar as ilusões que cultivamos todos os dias – e, em troca delas, ter a experiência de uma vida mais simples e serena.
A primeira dessas virtudes é a coragem para mudar. E não só no sentido mais simples da palavra, mas também para produzir a mudança, transformar o que precisa ser transformado. Saber até que ponto algo incomoda e ter a certeza, bem como a força, para fazer alguma coisa a esse respeito.
A segunda é a sabedoria para reconhecer os limites da mudança. Lembrar que há coisas que você simplesmente não vai poder mudar.
O mundo existe independentemente de nossa vontade, e não vai se adequar a nós. Esse, aliás, é um estágio fundamental no desenvolvimento cognitivo e ético do ser humano: aprender que o mundo não gira em torno de você, e o universo parece manter uma indiferença olímpica a respeito de muitas de suas atitudes. Alguns adultos parecem não ter passado por essa fase, e muitas vezes assumem comportamentos que refletem isso. Quando algo dá errado, sua reação é colocar a culpa em alguém, justificar o injustificável ou cultivar um amplo ressentimento contra quem ou o que considera culpado.
Por isso se pensa a felicidade dentro da perspectiva de otimismo crítico: cada uma e cada um de nós pode ser forte o suficiente para tentar mudar as coisas, e sábio o bastante para lembrar que as mudanças e as transformações têm limite. Evitamos a frustração se a mudança não ocorrer, e cultivamos a sabedoria para entender que nem tudo é possível mudar.

Por exemplo, às vezes temos a ilusão de que somos capazes de provocar a mudança em alguém (“puxa, vou tentar mudar essa pessoa”). É provável que isso não aconteça. Talvez esse esforço da mudança encontre um limite na sabedoria de entender que nem tudo é possível.
Aceitar o Universo tal como ele é não é inércia, e sim uma forma de se recordar do limite dos nossos esforços. Só posso usar corretamente minha força se souber quais são seus limites, onde ela precisa ser cultivada e como fazer isso.
O propósito é encontrar a felicidade dentro das possibilidades atuais.
Perfeição, perfeccionismo
- Para os outros: cria exigências irrealistas de perfeição de quem vive com você;
- para si, ou auto-orientado: quando as cobranças partem de você mesmo;
- social: o que você acha que outras pessoas vão pensar a seu respeito.
De acordo com as pesquisadoras, tanto o perfeccionismo auto-orientado como o socialmente orientado envolvem um alto nível de autocrítica e entendimento de si baseado em performance e resultados. Sua conclusão a respeito dos efeitos desse cenário é direta: “A depressão é um resultado provável”.
Esse não é o único trabalho que mostra alguma associação entre felicidade e a vontade de ser perfeito.
Em uma pesquisa com estudantes de arte sobre perfeccionismo, o professor Rasim Basak mostrou algumas características da personalidade perfeccionista notada nas atitudes de sala de aula. Adaptando aqui o resultado de outra pesquisa de Hewitt e de Flett, podemos imaginar algo parecido em diversas outras situações:
- Preocupar-se demais com a percepção dos outros a seu respeito;
- sentir ciúmes quando alguém faz algo melhor;
- sensibilidade excessiva a erros; autoavaliações rigorosas;
- estabelecer padrões irrealistas e esforçar-se para atingi-los;
- ver um projeto concluído como não concluído;
- tudo ou nada: se não for um sucesso total, é um fracasso;
- concentrar-se nos detalhes sem notar o todo; atenção seletiva;
- problemas com gestão e organização do tempo; indecisão, procrastinação;
- pouco gosto pelo processo e preocupação excessiva com resultados;
- mudanças de humor e expressão de angústia durante as tarefas;
- baixa autoestima.
A vida interior plena é uma vida na qual você se dá o direito de rir, de chorar, de ter os seus momentos de alegria e de felicidade tanto quanto os momentos de tristeza e, por que não, de solidão. Mas também o direito de pensar no que a sua vida tem de potência.

Vários autores alertam para o fato de precisarmos ficar sozinhos com nós mesmos. Isso não é errado, não significa que você não gosta dos outros. Ao contrário, para conviver com os outros, em primeiro lugar, antes de conhecer o outro, é preciso conhecer a si mesmo. Isso não é de uma hora para a outra. Você não pensa de repente “nossa, vou parar rapidinho para pensar na minha existência por cinco minutos”.
Conhecer isso é resgatar uma ideia mais ampla de felicidade, sem cair na armadilha de transformá-la em sinônimo de perfeição.

A tirania da positividade
Fonte ==> Você SA