Só morre engasgado quem nunca se pronunciou: a história do ex-menino de orfanato que transformou o abandono em literatura

Lindinaldo Santiago dos Santos

Depois de viver em três orfanatos, morar nas ruas, atravessar o Brasil como andarilho e enfrentar uma internação psiquiátrica, Lindinaldo Santiago dos Santos encontrou na escrita uma forma de sobreviver e deu vida ao livro ANJÔNIO; duas cores e um cenário imaginário.

Naquela época, quase ninguém conhecia sua voz.

Por dificuldades na fala e na pronúncia das palavras, Lindinaldo evitava conversar. Muitos acreditavam, inclusive, que ele não falava. O silêncio tornou-se um mecanismo de defesa diante das dificuldades de comunicação e da realidade em que vivia.

Foi somente aos 16 para 17 anos que decidiu romper com aquele ciclo. Fugiu do orfanato levando apenas a roupa do corpo. Sem documentos e sem destino, iniciou uma longa jornada pelas rodovias brasileiras, vivendo como andarilho, dormindo nas ruas e passando por abrigos em diferentes cidades, entre elas Belo Horizonte e São Paulo.

Foi justamente nesse período de maior vulnerabilidade que aconteceu o episódio que mudaria sua vida.

Em meio às ruas, encontrou um pequeno livro de bolso sem capa. Embora ainda não soubesse ler corretamente, resolveu enfrentar cada palavra em voz alta, repetindo sílabas, reconstruindo frases e insistindo diariamente na leitura como forma de melhorar sua dicção.

Aos poucos, as palavras começaram a fazer sentido.

O exercício de ler em voz alta não apenas desenvolveu sua fala, mas abriu as portas para um universo que jamais havia conhecido. Fachadas de lojas, revistas descartadas, jornais encontrados pelo caminho: tudo se transformou em leitura.

Pouco tempo depois, veio a escrita.

Poemas, contos, crônicas e desenhos passaram a ocupar os espaços onde antes existiam apenas o silêncio e a solidão.

A escrita deixou de ser apenas um hábito.

Tornou-se refúgio.

Equilíbrio.

Sobrevivência.

Recomeços e novos conflitos

Depois de anos vivendo nas ruas, Lindinaldo chegou à cidade de Araxá, em Minas Gerais, onde recebeu uma oportunidade de trabalho. Atuou como garçom, servente de pedreiro e ajudante de armador de ferragem, profissão que exerce até hoje.

Enquanto trabalhava, também reconstruía sua própria identidade. Recuperou seus documentos, retomou os estudos e, aos 24 anos, tornou-se pai.

Mas uma pergunta passou a persegui-lo.

Toda vez que o filho o chamava de pai, sentia que lhe faltava algo essencial: nunca havia aprendido o que significava ser filho.

Movido por essa inquietação, utilizou seus documentos para localizar a família biológica pela internet. Com apenas R$ 90 no bolso, embarcou rumo a Belo Horizonte. Quando o dinheiro acabou, completou o restante da viagem caminhando e pegando caronas.

Finalmente conheceu a mãe, o pai, os irmãos, tios e avós.

O reencontro parecia realizar um sonho.

Entretanto, a convivência revelou um sentimento inesperado.

Mesmo cercado pelos familiares, não conseguia sentir que pertencia àquele lugar. A sensação de ser um estranho entre pessoas do próprio sangue crescia a cada dia.

Após cerca de um ano, decidiu retornar para Araxá.

Mas já não era o mesmo.

Lindinaldo Santiago dos Santos

Quando a escrita voltou a salvar sua vida

De volta a Minas Gerais, Lindinaldo mergulhou ainda mais na escrita. Escrevia compulsivamente, desenhava e criava mundos imaginários na tentativa de organizar pensamentos e escapar da realidade.

Quando isso já não era suficiente, abandonou novamente tudo o que havia construído.

Voltou a viver como andarilho, passou pelas ruas e por instituições de acolhimento até chegar a Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, onde viveu um período de internação em um hospital psiquiátrico.

Foi ali que conseguiu reorganizar a própria mente.

Também foi ali que amadureceu a ideia da obra que escreveria.

Uma frase que resume uma vida

Só morre engasgado quem nunca se pronunciou.

A frase tornou-se um símbolo da trajetória de Lindinaldo Santiago dos Santos.

Durante anos, ele foi o menino que quase ninguém ouvia falar. Depois, tornou-se o homem que encontrou na literatura a própria voz.

Escrever passou a ser mais do que contar histórias.

Foi a maneira que encontrou para enfrentar o abandono, compreender a própria identidade e transformar experiências dolorosas em criação artística.

O nascimento de ANJÔNIO

Toda essa caminhada deu origem ao livro ANJÔNIO; duas cores e um cenário imaginário.

A obra reúne contos e poesias inspirados na fantasia mórbida, misturando imaginação, simbolismos e reflexões que dialogam com temas como pertencimento, solidão, loucura, memória e sobrevivência.

Mais do que um livro de ficção, a publicação representa a materialização de uma vida reconstruída palavra por palavra.

Para Lindinaldo, escrever nunca foi apenas produzir literatura.

Foi aprender a falar quando ninguém acreditava que ele tinha voz.

Foi transformar o silêncio em narrativa.

E provar, com a própria história, que algumas pessoas sobrevivem justamente porque um dia decidiram se pronunciar.

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