O Brasil demorou a construir ferrovias. Também demorou a construir redes de confiança.

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Quando se fala em infraestrutura, a imagem que vem à mente é quase sempre a mesma: rodovias, portos, aeroportos e ferrovias. Mas existe outra infraestrutura, muito menos visível e igualmente determinante para o desenvolvimento de um país: a rede de relacionamentos entre as pessoas que produzem riqueza.

O Brasil conhece bem o custo de adiar investimentos em infraestrutura física. Durante décadas, priorizamos rodovias enquanto países de dimensões continentais expandiam suas malhas ferroviárias. O resultado foi uma logística mais cara, menos eficiente e uma perda significativa de competitividade.

Agora, esse cenário começa a mudar. A expansão da malha ferroviária no Centro-Oeste representa muito mais do que novos trilhos. Ela simboliza uma nova lógica econômica para o país.

Projetos como a Ferrovia Estadual de Mato Grosso, a expansão da Ferronorte e os corredores bioceânicos que conectam Mato Grosso e Mato Grosso do Sul à Bolívia e, posteriormente, aos portos do Oceano Pacífico, têm potencial para redesenhar a logística da América do Sul nas próximas décadas. Ao reduzir distâncias até os mercados asiáticos, essas ligações prometem diminuir custos, aumentar a competitividade do agronegócio e integrar o Brasil de forma mais eficiente ao comércio internacional.

Uma ferrovia não produz soja, milho, carne ou minério. Ela apenas conecta quem produz a quem compra. Mas é justamente essa conexão que multiplica o valor da economia.

Acredito que o mesmo raciocínio se aplica ao networking profissional.

Durante muito tempo, o empresário brasileiro enxergou o relacionamento como uma habilidade social secundária, quase um talento pessoal. Enquanto isso, economias mais maduras passaram a tratar redes de confiança como ativos estratégicos para o desenvolvimento econômico.

A diferença é profunda.

Networking não é trocar cartões de visita.

Networking é construir infraestrutura social.

Assim como uma ferrovia liga cidades, uma rede estruturada de relacionamentos liga empresários, investidores, fornecedores, clientes, talentos e conhecimento. Ela reduz o tempo necessário para encontrar oportunidades, diminui o custo das transações, acelera decisões e aumenta a velocidade com que os negócios acontecem.

Na economia, costumamos medir infraestrutura em quilômetros de trilhos ou rodovias. Talvez devêssemos medir também a densidade das conexões entre as pessoas que empreendem.

Não por acaso, os ecossistemas empresariais mais inovadores do mundo — como o Vale do Silício, Boston, Tel Aviv e Shenzhen — possuem algo em comum: uma intensa circulação de informação, confiança e colaboração. Ideias encontram investidores. Empresas encontram talentos. Problemas encontram soluções. O fluxo econômico acontece porque existe fluxo de relacionamentos.

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Mario Quirino é diretor do BNi Brasil em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pará. Distrital de todo Norte do Brasil.

Essa lógica também começa a ganhar escala no Brasil.

O BNI, maior organização de networking de negócios do mundo, reúne hoje mais de 20.600 empresários brasileiros, responsáveis por gerar mais de R$ 3,4 bilhões em negócios nos últimos doze meses por meio de um sistema estruturado de indicações qualificadas. Globalmente, a organização conecta mais de 355 mil empresários em mais de 75 países, formando uma das maiores redes de relacionamento empresarial do planeta.

Os números impressionam, mas talvez o mais importante seja o que eles representam.

Cada novo membro amplia a capacidade de conexão da rede. Cada novo grupo fortalece um ecossistema empresarial local. Cada indicação bem-sucedida reduz a distância entre uma necessidade e uma solução.

É exatamente o mesmo princípio de uma ferrovia.

Quando um novo trecho ferroviário é inaugurado, ele não beneficia apenas as cidades diretamente atendidas. Toda a malha se torna mais eficiente. Da mesma forma, quando uma nova comunidade empresarial é criada, ela fortalece todo o ambiente de negócios ao seu redor.

Durante muito tempo, o Brasil discutiu apenas o déficit de infraestrutura física.

Talvez esteja na hora de reconhecer um segundo déficit: o da infraestrutura relacional.

Ambos produzem consequências semelhantes. Um aumenta o custo para transportar mercadorias. O outro aumenta o custo para transportar confiança.

Um dificulta o fluxo de produtos.

O outro dificulta o fluxo de oportunidades.

No século XX, os países que mais cresceram investiram em estradas, energia, portos e ferrovias.

No século XXI, continuar investindo nessas obras será indispensável. Mas não suficiente.

As economias mais competitivas serão aquelas capazes de construir, simultaneamente, dois tipos de infraestrutura: a física, que conecta territórios, e a relacional, que conecta pessoas.

As grandes ferrovias do século XXI transportarão cargas.

As grandes redes de relacionamento transportarão oportunidades.

Os países que compreenderem a importância de investir nas duas infraestruturas — a física e a relacional — serão aqueles que construirão as economias mais competitivas das próximas décadas.

Porque riquezas não circulam apenas sobre trilhos.

Elas circulam, sobretudo, sobre confiança.

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