Vale a pena continuar sóbria para enfrentar frustrações? – 28/07/2026 – Vida de Alcoólatra

Ilustração de um coração dividido em pedaços irregulares em tons de vermelho e rosa, unido por pontos azuis que simulam costura, sobre fundo cinza com formas circulares coloridas nas bordas.

Quando comecei a frequentar o AA, morria de medo de que minha avó morresse. Eu intuía que não ia aguentar o tranco. Mas ela só partiu quando eu já estava em recuperação havia dois anos. Nesse tempo, consegui estar ao seu lado: cuidei dela, retribuí um pouco do cuidado que ela sempre teve comigo e mostrei que, enfim, eu estava bem. Ela foi em paz.

Na minha experiência, todo alcoólatra é carente. Precisa preencher o espaço que antes era ocupado pela bebida. Já falei muitas vezes do meu cachorro, mas acho que nunca contei o quanto sou sonhadora quando o assunto é amor. Minha irmã sempre diz que vivo num mundo à parte. “O maravilhoso mundo da Alice.” Me apaixono com facilidade e me apego demais. A maioria dos meus relacionamentos aconteceu muito mais dentro da minha cabeça do que na vida real. Imaginei futuros, construí histórias, quando, na verdade, era apenas um envolvimento passageiro.

Falar de sentimentos é delicado. Sempre tive muito medo da frustração. Talvez por isso escolhesse pessoas emocionalmente indisponíveis. Era uma forma de me proteger: sonhar parecia mais seguro do que viver um relacionamento de verdade. O tombo de uma decepção pode ser um convite à recaída.

Recentemente ganhei um livro de poemas. Finalmente embarcava em algo mais concreto, pensei. Mais uma vez, porém, transformei um gesto em uma promessa. Quem não quer viver uma relação tranquila? O problema é que filtrei errado todos os sinais. Ou talvez não os tenha filtrado: apenas escolhi acreditar na versão que eu havia criado. Fazia muito tempo que eu não me envolvia com alguém.

O livro, somado a outros pequenos gestos, alimentou uma história que cresceu apenas dentro de mim. Esqueço que vivo num universo particular. Encontro pessoas que despertam em mim a esperança de um amor, mas a intensidade com que vivo essas expectativas talvez tenha relação com o alcoolismo. Não apenas com a bebida, mas com a forma exagerada como sinto as coisas.

Lembro que, quando completei um ano de recuperação, sofri uma decepção amorosa enorme. Achei que fosse recair. Entreguei meu coração a alguém que não podia —ou não queria— estar numa relação.

Agora, quase nove anos sem beber, outro tombo chegou. E, por alguns instantes, senti aquele conhecido frio na barriga. A rejeição ainda desperta em mim uma vontade absurda de largar tudo. Vale a pena continuar sóbria para enfrentar frustrações, perdas e lutos?

Vale.

Quero dizer a quem está em recuperação que não desista. A vontade de beber diante de uma decepção não é falta de caráter nem fraqueza. Faz parte da doença. Enfrentar a vida sóbrio é como dirigir um carro com um pneu furado: exige muito mais esforço e parece que tudo puxa para o lado errado. A tentação de soltar o volante é enorme. Mas o que acontece depois?

A bebida pode até te anestesiar por algumas horas. Só que, quando o efeito passa, o sentimento continua ali. E agora vem acompanhado da ressaca física, da culpa e da vergonha.

Não vale a pena.

Eu não deixo de viver a tristeza de ter me enganado. Ela é real. Li os sinais como eu queria. A responsabilidade é minha, e isso, curiosamente, me fortalece. A dor vai passar. Como tantas outras passaram. Dessa vez, porém, ela vai passar sem álcool.



Folha SP

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