Por que CEOs precisam liderar o processo de adaptação à reforma tributária

Por que CEOs precisam liderar o processo de adaptação à reforma tributária

A reforma tributária brasileira já é uma realidade com cronograma definido. Sua implementação começou em janeiro e acontecerá de forma gradual, com etapas de transição previstas até 2033, quando o novo regime estará plenamente vigente. Ainda assim, apesar dessa previsibilidade, o mercado de trabalho segue operando como se o impacto estivesse distante.

O que se esperava, neste momento, era um movimento mais consistente de antecipação, especialmente na formação e contratação de profissionais das áreas fiscal, tributária e contábil. No entanto, esse avanço ainda não aconteceu de forma relevante. As movimentações seguem concentradas em grandes empresas, principalmente multinacionais e grandes grupos nacionais, que já começaram a se preparar. Fora desse grupo, o comportamento predominante ainda é de espera.

Esse padrão não é exatamente novo. O mercado brasileiro historicamente reage aos movimentos estruturais em vez de se antecipar a eles. Foi assim com a tecnologia, com o marketing digital e, mais recentemente, com o próprio RH. Em todos esses casos, o ciclo se repetiu: uma fase inicial de baixa preparação, seguida por uma explosão de demanda, escassez de profissionais qualificados e, consequentemente, uma valorização acelerada desses talentos.

A tendência é que o mesmo aconteça com a área tributária, mas com uma diferença importante. Desta vez, o desafio é ainda maior, porque não se trata apenas de adaptar conhecimentos existentes, mas de lidar com um sistema completamente novo. Ou seja, hoje não existe um número suficiente de profissionais prontos para essa transformação. Ao mesmo tempo, não há um movimento estruturado das empresas para formar essas pessoas desde já.

Parte disso vem da forma como o investimento em capacitação ainda é percebido no Brasil. Preparar pessoas para um cenário que só será plenamente exigido nos próximos anos ainda é visto, por muitas empresas, como custo em vez de estratégia. Do lado dos profissionais, o comportamento também tende a ser reativo: a especialização acontece quando a demanda já está posta, não antes.

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Outro ponto que chama atenção é o papel ainda tímido das empresas de contabilidade nesse processo. Esperava-se que esse segmento liderasse a adaptação, tanto no apoio aos clientes quanto na formação de novos especialistas. No entanto, o que se observa até aqui é uma atuação predominantemente reativa, o que contribui para a lentidão do mercado como um todo.

Ao mesmo tempo, áreas como RH e financeiro também não assumem protagonismo – muitas vezes porque o tema ainda não chegou à agenda da alta liderança. O resultado é um ciclo de inércia: cada área espera a outra agir, e nenhuma, de fato, lidera o movimento.

Ou seja, essa não é uma pauta técnica, nem operacional, é uma pauta de liderança. Quando o tema não chega à mesa do CEO como prioridade estratégica, ele tende a ser diluído nas demais áreas. E, sem direcionamento claro do topo, dificilmente haverá mobilização consistente nas estruturas abaixo. A ausência de movimento, nesse caso, não é sinal de segurança, mas de falta de direcionamento.

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As consequências da inércia

Enquanto isso, os impactos da reforma já começam a desenhar mudanças mais amplas na estrutura das empresas. Modelos operacionais construídos ao longo dos anos com base em vantagens fiscais específicas tendem a ser revistos. Isso pode levar à reorganização de operações, deslocamento de unidades e, em alguns casos, redução de equipes em determinadas regiões, enquanto outras áreas começam a demandar novas contratações.

Esse movimento cria um cenário ambíguo, com possibilidade de cortes mas também novas oportunidades. O desafio está justamente na capacidade de leitura dessas mudanças. Empresas que conseguirem antecipar esse redesenho tendem a se posicionar melhor tanto na gestão de custos quanto na atração de talentos.

No fim, a reforma tributária em si não será o maior problema. O ponto crítico está na forma como o mercado decide reagir à reforma. Se o comportamento histórico continuar a se repetir, o país pode enfrentar mais um ciclo de escassez de profissionais qualificados, aumento de custos e decisões tomadas sob pressão.

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Está claro que o impacto não estará restrito a uma área específica. Ele atinge diretamente a base operacional das empresas e, por consequência, suas decisões de gente, estrutura e crescimento. Nesse contexto, a antecipação deixa de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma questão de sobrevivência.

*Paola Salgado é CEO da consultoria de recrutamento PS Contrata.



Fonte ==> Você SA

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