Políticas de saúde ignoram realidade ribeirinha – 27/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Políticas de saúde ignoram realidade ribeirinha - 27/04/2026 - Equilíbrio e Saúde

Na imensidão da floresta amazônica, onde o mapa pouco revela sobre o tempo real das distâncias, fazer saúde pública exige mais do que planejamento técnico. Requer adaptação a uma geografia que impõe suas próprias regras.

O Brasil, no entanto, ainda formula políticas públicas de saúde voltadas às regiões acessíveis por estradas e dá pouca atenção àquelas que dependem quase que exclusivamente dos rios. É o que afirma a secretária municipal de Saúde de Eirunepé (AM), a enfermeira Nathaly Nascimento Rodrigues.

Isolado por terra, o município só é acessível por avião ou barco. Em linha reta, está a 1.160 km de Manaus. Pelo rio, a viagem pode levar até 21 dias; de avião, cerca de 1h50. Mais de 170 comunidades se espalham por grandes distâncias —algumas, como Ubim, no rio Gregório, ficam a mais de 13 horas de lancha, mas podem levar até seis dias em barcos menores no período da seca.

Segundo a secretária, programas nacionais muitas vezes não chegam por falta de adaptação à realidade local. “Eles vão por rodovia. Aqui não tem estrada”, afirma, citando unidades móveis de saúde, como as da saúde da mulher, que não operam em áreas fluviais.

A escassez de recursos agrava o cenário: cada viagem da UBS fluvial custa cerca de R$ 100 mil, enquanto o repasse federal cobre apenas parte. O restante dos custos fica com o município, segundo ela.

Outro entrave, afirma, é a burocracia para ampliar equipes de saúde da família. Nathaly conta que pedidos para mais agentes comunitários de saúde seguem pendentes no Ministério da Saúde, mesmo diante de um território com tantas comunidades separadas por horas ou dias de deslocamento.

A Folha acompanhou uma expedição à comunidade do Ubim, na reserva extrativista do rio Gregório, para a inauguração do primeiro posto de saúde na região. O modelo, que conta com apoio da iniciativa privada, une telessaúde, equipe médica presencial a cada dois meses e permanência no local de uma técnica de enfermagem e uma agente comunitária da saúde.

Os atendimentos refletem o modo de vida local: acidentes com animais peçonhentos, lesões do trabalho na roça e na pesca, além de diarreias associadas às variações da água. Doenças crônicas aparecem menos, muitas vezes por falta de diagnóstico. Para ampliar o acesso, a gestão aposta em pontos de apoio dentro da floresta, como o inaugurado no Ubim.

A ausência de saneamento básico ainda expõe moradores a riscos evitáveis. Por meio de parcerias, a FAS (Fundação Amazônia Sustentável) está construindo cem unidades de banheiros em 17 comunidades da reserva extrativista do rio Gregório, além de sistema de filtragem para o consumo da água que vem do rio.

A Folha se hospedou na casa de uma família beneficiada havia dois meses com o banheiro e chuveiro dentro de casa, além de água tratada na torneira. “É ganhar dignidade”, diz, emocionada, a moradora Doriana Ferreira da Silva, 36, mãe de dois filhos.

Em comunidades acompanhadas por agentes de saúde, as queixas de diarreia caíram até 90% após a adoção dessas medidas. Outros estudos indicam que a instalação de vasos sanitários com descarga e saneamento adequado pode reduzir em 33% as doenças parasitárias.

Segundo a secretária Nathaly, o planejamento de ações de saúde para essas populações depende do calendário das águas. Na cheia, é possível alcançar áreas mais distantes por meio da UBS fluvial, com equipes completas —médicos, enfermeiros, dentistas, psicólogos e medicamentos. Na seca, porém, os trajetos se tornam inviáveis. “Se a embarcação encalhar, tem que esperar a próxima cheia”, diz.

Para Mickela Souza Costa, gerente do programa SUS na Floresta da FAS, adaptar políticas públicas de saúde à realidade local é central. Ela cita entraves como plataformas digitais do SUS que exigem confirmação por SMS, inviável em regiões sem sinal de telefonia, como é o caso da comunidade do Ubim. Para ela, a telessaúde é estratégica, desde que adaptada às limitações locais.

A prefeita de Eirunepé (AM), Áurea Maria Ester Marques (MDB), nascida na região, cita a logística como um dos principais obstáculos na gestão. Segundo ela, o isolamento dessas comunidades eleva custos e limita a ação pública.

Produtos chegam mais caros, pressionando um orçamento que não considera as especificidades amazônicas. “Os recursos existem, mas são muito poucos diante de tantas necessidades. Não se respeitam os custos amazônicos”, diz.

Na saúde, o cenário é crítico, afirma a prefeita. O município absorve parte da atenção primária e arca com cerca de 70% dos gastos do hospital local, mesmo sem estrutura para média e alta complexidade.

Pacientes graves precisam ser transferidos para Manaus —operação financiada pela prefeitura para cerca de 300 pessoas por mês, incluindo transporte, hospedagem e alimentação. “A meta é inverter essa lógica e levar os serviços até as comunidades.”

Em entrevista à Folha, a secretária de Atenção Primária à Saúde do Ministério da Saúde, Ana Luiza Caldas, disse que as políticas federais voltadas às comunidades ribeirinhas no Amazonas vêm sendo ampliadas e reformuladas para alcançar áreas mais remotas.

Segundo ela, o foco recente tem sido “desburocratizar o acesso” de estados e municípios aos programas e “remodelar o processo de trabalho” das equipes para ampliar o atendimento e a resolutividade nos chamados “territórios líquidos”, espaços onde a dinâmica da água molda a vida, a cultura e a dinâmica das populações.

Ana diz que o financiamento federal mais que dobrou. O número de embarcações de saúde financiadas passou de cerca de 36, em 2022, para mais de 70 em 2025, com recursos que chegam a R$ 340 milhões.

Em municípios como Eirunepé, afirma, também há apoio a barcos menores, pontos de apoio e transporte terrestre. Reforça ainda que não há pedidos pendentes para a contratação de mais agentes comunitários para a região.

Reconhece, porém, que a seca dos rios dificulta as ações de saúde. “Às vezes, as embarcações não conseguem navegar porque os rios estão muito baixos.” E que, em emergências, como picadas de cobra, o tempo de deslocamento é um obstáculo. “Não dá para esperar 10 ou 12 horas por atendimento.”

Os moradores da comunidade de Ubim relatam que só de combustível chegam a gastar R$ 5.000 nas viagens de ida e volta a Eirunepé. “Em uma emergência de saúde, todo mundo ajuda, mas já teve gente que se endividou para chegar à cidade”, conta Dionilson Mota de Lima, 38.

Sobre a falta de recursos para deslocamento de pacientes, a secretária Ana diz que esse tipo de apoio não integra as atribuições do SUS. A alternativa, diz ela, é reorganizar a oferta de serviços e ampliar parcerias com outros ministérios, como o da Pesca, para adaptar políticas às populações que dependem dos rios.

Para enfrentar a escassez de especialistas, o ministério aposta na saúde digital. “Estamos investindo em telessaúde para que a pessoa não precise sair do território”, afirma.

A jornalista viajou a convite do programa Juntos pela Saúde



Folha SP

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