Na abertura da Copa do Mundo de 2026, na última quinta-feira (11), em uma partida entre México e África do Sul, um árbitro brasileiro precisou explicar uma expulsão revisada no VAR, em inglês, para um estádio com mais de 80 mil pessoas e uma audiência global de milhões. Wilton Pereira Sampaio anunciou a decisão, o jogador deixou o campo e a partida seguiu. Em outras palavras: a mensagem chegou. O primeiro objetivo de quem fala outra língua é exatamente esse, ser compreendido, e ele foi. Ainda assim, virou meme por sua pronúncia.
O detalhe que merece atenção é de onde veio o deboche. Não foram pessoas que falam inglês como primeira língua. Foram brasileiros rindo de um brasileiro sobre a pronúncia de quem estava fazendo, sob altíssima pressão, um trabalho que a maioria de nós não saberia fazer. É uma atitude curiosa, e vale entender de onde ele vem, porque diz menos sobre o inglês do árbitro do que sobre nossa própria relação com o idioma.
Essa atitude tem nome: preconceito linguístico. Vale defini-lo bem, porque ele costuma se disfarçar de zelo pela língua. Preconceito linguístico é eleger uma forma de falar como correta e, a partir disso, julgar todas as outras formas e seus falantes. Repare que o alvo nunca é só a palavra mal pronunciada. É a pessoa: de onde ela vem, em qual escola estudou, que lugar ocupa na sociedade.
Por isso o preconceito linguístico machuca tanto. No caso do sotaque, a injustiça é ainda maior, porque um sotaque estrangeiro não é um defeito a corrigir. É a prova de que aquela pessoa fala mais de um idioma – algo que a maioria dos preconceituosos nunca conquistou.
O mito do inglês perfeito
Mais do que isso, Crystal calcula que há três falantes não nativos de inglês para cada falante nativo. Ou seja, apenas um em cada quatro falantes de inglês no mundo tem a língua como materna. Quando o brasileiro ignora essa diversidade e considera que o único inglês válido é um nativo utópico, ele não está defendendo a língua. Está dificultando a própria vida, mirando um padrão que a maioria dos falantes de inglês no planeta não segue.
Há outro agravante. Na edição de 2025 do ranking da EF Education First, que avaliou a proficiência média de 123 países no inglês, o Brasil ocupa a 75ª posição. Estamos na faixa de baixa proficiência do ranking. Ou seja: geralmente, quem debocha da pronúncia alheia também está aprendendo. Não existe uma superioridade real. Existe, no máximo, a vontade de pertencer a um grupo que parece dominar algo que poucos dominam de fato. E a reação mais comum a essa cobrança coletiva é o silêncio.
O deboche que viraliza nas redes sociais tem uma versão mais discreta, e bem mais frequente, dentro das empresas. É o sorriso de canto quando um colega pronuncia uma palavra de um jeito inesperado. É a correção no meio da reunião, que não acrescenta nada à conversa e só serve para constranger.
Pense na cena mais comum do mundo corporativo brasileiro: uma reunião com a matriz, todos façando em inglês. A pessoa que mais domina o assunto técnico costuma ser também a que mais tem receio de se arriscar no idioma. Ela ensaia a frase de cabeça, perde o tempo da fala e, quando finalmente abre a boca, já está tensa o suficiente para tropeçar. Um olhar trocado entre dois colegas basta para que ela decida não se voluntariar de novo. Um profissional competente acabou de sair da conversa e quem decidiu por ele foi o medo de ser julgado pelos próprios pares.
Aprender errando
É verdade que todos podem, e devem, melhorar. O ponto é outro: a crença de que é preciso estar com o inglês “perfeito” para só então começar a usá-lo atrasa a vida de milhares de profissionais. O mercado global não pede perfeição. Pede um inglês que dê conta das tarefas reais: conduzir uma reunião, escrever um e-mail claro, defender um projeto, negociar um prazo. Isso é fluência operacional, e ela começa muito antes da pronúncia impecável. Quem espera a perfeição para abrir a boca, em geral, espera a vida inteira.
Foi exatamente isso que o árbitro fez e que seus críticos não fizeram: ele abriu a boca. Comunicou, sob pressão máxima, numa segunda língua, diante de milhões. Reconhecer o que falta no inglês do outro é a coisa mais fácil do mundo. Difícil é se colocar na posição de quem precisa ser compreendido e aceitar que talvez tropece no caminho. É essa disposição que o mercado recompensa de verdade.
Existe uma saída: mais de cultura do que de gramática. O inglês não pertence a um clube fechado de nativos, mas a seus falantes. A maior parte das pessoas que falam inglês no mundo, como nós, o aprendeu como língua estrangeira, com sotaque, com história, com a marca de onde veio. Quando o profissional brasileiro se apropria do idioma e entende que ele também é seu, e não precisa de licença de ninguém para usá-lo, ele trava menos. Fala mais. Erra, corrige e segue em frente. E só assim chegamos à verdadeira fluência.
Então lembre, da próxima vez que sentir vontade de rir do inglês de um colega, que uma risada não ensina ninguém a falar melhor. Ele apenas ensina uma pessoa a ficar quieta. E um país que precisa se conectar com o mundo para crescer não pode seguir pagando, em silêncio, o preço de uma piada.
Quatro expressões em inglês para evitar a todo custo
Fonte ==> Você SA