Anthony Fauci invocou a Quinta Emenda e se recusou a responder às perguntas de uma comissão do Senado mais de cem vezes em 29 de julho de 2026.
A audiência conduzida pelos republicanos, convocada para examinar a gestão da pandemia por Fauci e as origens da Covid-19, foi o capítulo mais recente de uma história política que começou em 2020, quando a incerteza, o medo e a frustração com o governo se entrelaçaram com teorias da conspiração.
Nos últimos seis anos, algumas dessas teorias saíram das margens da internet e chegaram à política republicana, ao movimento Maga (faça a América grande de novo), às comunidades antivacina e até mesmo a redes extremistas nacionalistas brancas.
As teorias da conspiração não apenas explicam acontecimentos; elas identificam vilões, e Fauci se tornou um dos mais populares nessa história específica.
Nos anos que se seguiram à pandemia, o senador americano Rand Paul e outros acusaram Fauci de muitas coisas. A principal acusação conspiratória é a de que ele teria ajudado a viabilizar a pandemia de Covid-19 por meio de pesquisas financiadas pelos Estados Unidos em um laboratório em Wuhan, na China, e depois participado de um acobertamento coordenado entre o governo e a comunidade científica, induzindo o Congresso ao erro para ocultar essa ligação e suprimir a explicação do vazamento de laboratório. Paul, que é republicano, pediu repetidamente que Fauci fosse processado.
Em janeiro de 2025, o presidente Joe Biden concedeu a Fauci um indulto preventivo que abrangia possíveis crimes federais relacionados ao seu trabalho no governo desde 2014. Fauci não havia sido acusado de nenhum crime, mas os críticos retrataram o indulto como prova de que ele tinha algo a esconder. Fauci negou as alegações de irregularidades e prestou depoimento diversas vezes perante o Congresso.
A conspiração sobre Fauci, porém, é muito maior do que Rand Paul. Paul pode ser seu defensor mais persistente no Congresso, mas essa narrativa foi amplificada por uma rede mais ampla de parlamentares republicanos. Vários integrantes republicanos do Congresso, como os deputados Steve Scalise, James Comer e o ex-deputado Brad Wenstrup, entre outros, promoveram versões da narrativa sobre Fauci e a origem da Covid.
Os republicanos da Câmara investigaram formalmente essas alegações durante dois anos, enquanto seus integrantes acusavam repetidamente Fauci de suprimir a teoria do vazamento de laboratório e enganar a população.
Essa investigação acabou endossando uma alegação central da narrativa conspiratória: a investigação dos republicanos da Câmara sobre a Covid-19 concluiu que o vírus muito provavelmente vazou de um laboratório em Wuhan, que Fauci ajudou a elaborar um artigo científico que descartava essa teoria e que, em depoimento reservado, ele afirmou que a orientação de manter “seis pés (1,83m) de distância” “meio que simplesmente apareceu”, embora essas sejam as conclusões de uma comissão partidária, e não de uma investigação independente, e tenham sido contestadas por Fauci e pelos integrantes democratas.
Sou professor associado de sociologia e criminologia, e minha produção acadêmica se concentra em redes de extrema direita e radicalização digital, exatamente o ecossistema onde essas teorias da conspiração criaram raízes e se disseminaram. Minha pesquisa sobre como esses movimentos evoluem na internet e se cruzam com ativistas políticos e redes extremistas foi diretamente relevante para rastrear como as alegações sobre a origem da Covid saíram de comunidades marginais e entraram no discurso político dominante.
A decisão de Fauci de invocar a Quinta Emenda —explicada por ele e por seu advogado não apenas como um direito constitucional básico, mas também como uma estratégia para evitar a possibilidade de Paul tentar processá-lo por mentir ao Congresso com base em qualquer coisa que dissesse— pode ser politicamente explosiva e oferecer a seus adversários mais um argumento. Mas, na minha avaliação, o espetáculo diz mais sobre o que acontece quando teorias da conspiração se arraigam nas instituições políticas do que sobre as origens da Covid-19.
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Da incerteza à conspiração
A Covid-19 criou as condições em que as teorias da conspiração prosperam: enorme incerteza, consequências assustadoras, informações que mudavam rapidamente e desconfiança nas instituições.
As pessoas queriam explicações. Por que o vírus apareceu em Wuhan? Por que as recomendações sobre o uso de máscaras mudaram? Como as vacinas foram desenvolvidas tão rapidamente?
Essas perguntas eram legítimas. Os problemas surgiram quando elas passaram a ser associadas a uma conclusão predeterminada: pessoas poderosas teriam criado a pandemia ou ocultado a ligação com o laboratório de Wuhan.
Uma pesquisa de 2021 do Public Religion Research Institute mostra como uma versão desse pensamento estava disseminada. Cerca de 4 em cada 10 americanos (39%) concordavam que o coronavírus havia sido desenvolvido intencionalmente por cientistas em um laboratório. Entre os adeptos do QAnon (uma ampla teoria da conspiração segundo a qual um grupo de pessoas poderosas da elite, muitas vezes retratadas como satanistas envolvidos no tráfico de crianças, controla o governo e a sociedade, e Donald Trump lutava secretamente contra ela), o número era drasticamente maior: 85%. A mesma pesquisa constatou que pessoas que adotavam posturas contrárias às elites e aos especialistas eram mais propensas a aceitar teorias da conspiração sobre o coronavírus.
O pensamento conspiratório raramente existe de forma isolada. Por exemplo, uma pessoa que passa a acreditar que autoridades de saúde pública manipulam informações secretamente pode se tornar mais receptiva a alegações de que as vacinas contêm perigos ocultos. Alguém que desconfia das empresas farmacêuticas pode se mostrar mais aberto a afirmações de que a pandemia foi arquitetada com fins lucrativos. Quem acredita que elites poderosas agem rotineiramente em segredo pode ser mais receptivo a narrativas conspiratórias mais amplas, como o QAnon.
Essas crenças podem reforçar umas às outras, criando uma visão de mundo mais abrangente na qual se presume que instituições, especialistas e autoridades governamentais ajam de forma enganosa.
A conspiração sobre Fauci
Como Fauci teve grande visibilidade durante a pandemia, assessorando presidentes e aparecendo na televisão, ele rapidamente passou a ser associado aos esforços do governo para controlar a propagação do vírus.
Para alguns republicanos, ativistas do movimento Maga e outras pessoas que desconfiam do governo e das instituições científicas, Fauci passou a representar confinamentos, máscaras, vacinas e determinações governamentais.
Ativistas antivacina o incorporaram a narrativas mais amplas sobre empresas farmacêuticas e órgãos de saúde pública. Conspiracionistas levaram a história mais longe, retratando Fauci como parte de uma iniciativa secreta para ocultar as origens da Covid-19. Extremistas associaram essas alegações a ideias mais antigas sobre tirania governamental, controle social e elites corruptas.
O resultado foi um ciclo de retroalimentação.
Alegações eram produzidas em comunidades online, repetidas por figuras políticas e amplificadas por personalidades da mídia, que devolviam esses argumentos às redes sociais de seus apoiadores. A repetição fazia com que as alegações parecessem cada vez mais familiares. E familiaridade pode ser confundida com evidência.
A questão do vazamento de laboratório não é o mesmo que uma teoria da conspiração
Perguntar se o SARS-CoV-2 surgiu por meio de um salto zoonótico, quando um vírus passa de animais para seres humanos, ou de um incidente relacionado a um laboratório não constitui, por si só, uma teoria da conspiração. Cientistas e governos têm motivos legítimos para investigar as origens de uma pandemia.
O grupo consultivo científico independente da OMS (Organização Mundial da Saúde) informou, em 2025, que grande parte das informações necessárias para avaliar plenamente as hipóteses concorrentes não havia sido fornecida pela China. O grupo concluiu que as evidências disponíveis apontam para um salto zoonótico, mas sustentou que a hipótese do vazamento de laboratório não poderia ser descartada.
Há, no entanto, uma diferença entre investigar se pode ter ocorrido um acidente de laboratório e afirmar que cientistas criaram um vírus e o liberaram intencionalmente. Essa distinção é importante ao retomarmos o caso de Fauci e as alegações levantadas na audiência de 29 de julho: os parlamentares estavam investigando a possibilidade de uma liberação acidental em laboratório ou promovendo a ideia mais conspiratória de que cientistas criaram e liberaram o vírus deliberadamente?
A subcomissão da Câmara liderada pelos republicanos argumentou que pesquisas financiadas pelo governo dos Estados Unidos podem ter contribuído para a pandemia.
A investigação não estabeleceu que o vírus tenha sido fabricado ou liberado intencionalmente.
Hoje, a questão científica sobre a origem do SARS-CoV-2 continua sem solução. Mas as teorias da conspiração podem transformar a ausência de evidências em evidência de ocultação.
De teoria marginal a realidade política
Talvez a característica mais relevante das teorias da conspiração seja sua capacidade de passar de um grupo para outro.
Uma alegação pode surgir em uma comunidade online obscura e se espalhar pelas redes sociais até se tornar uma arma política.
A audiência de Fauci demonstra o momento decisivo desse processo. Essas alegações chegaram à engrenagem formal do governo, onde são amplificadas por autoridades eleitas e órgãos federais. A credibilidade de uma teoria pode aumentar simplesmente porque alguém com maior autoridade institucional a repetiu.
Talvez essa seja a pergunta mais importante em torno da audiência de Fauci: o que acontece quando teorias da conspiração adquirem a autoridade do governo?