Capital cerebral: o recurso mais importante para o futuro do trabalho

Tabela

Pessoas que caem no lero-lero corporativo – aqueles discursos cheios de jargões e frases de efeito que parecem significar muito pouco, ou coisa alguma – são provavelmente piores no trabalho, menos capacitadas para resolver problemas no escritório e tomar decisões de negócios. É o que mostrou Shane Littrell, pesquisador da Cornell University, nos Estados Unidos, que realizou quatro experimentos com mais de 300 voluntários para construir e validar sua “Escala de Receptividade à Besteira Corporativa”.

São competências que hoje estão recebendo o rótulo de “habilidades cerebrais”, porque envolvem fortemente funções cognitivas, emocionais e adaptativas de ordem superior. A criatividade, a comunicação, o pensamento crítico, a inteligência emocional e a flexibilidade são outros exemplos de brain skills. Elas permitem que você mantenha a calma em situações estressantes, encontre uma saída inovadora para um velho problema e construa relacionamentos significativos, no escritório e fora dele. Fazem de você um profissional mais competente e uma pessoa mais desenrolada.

Acontece que o mundo corporativo, com suas jornadas exaustivas e pressão pela alta performance, não costuma ser um solo fértil para essas competências. Trabalhar das 9h às 18h em um escritório é, tradicionalmente, o extremo oposto da liberdade criativa. O linguajar pode ser um atentado à boa comunicação – e o fato de que esse lero-lero ganha tanto espaço aponta para a necessidade de exercitarmos o pensamento crítico.

É verdade que diferentes setores e empresas demandam níveis também diferentes de competências não técnicas, como as brain skills. Se você trabalha com atendimento ao público, por exemplo, a flexibilidade é fundamental. Mas especialistas defendem que, no geral, a produtividade e a eficiência das organizações vai depender cada vez mais dessas habilidades – e que o “capital cerebral” já é o recurso mais importante para o futuro dos negócios e para a sociedade.

Continua após a publicidade

De onde vem

Brain capital, ou capital cerebral, é um conceito relativamente novo e um campo multidisciplinar em construção. Trata-se de um “estoque de capital produtivo e complexo que se acumula ao longo da vida”, nas palavras de Rym Ayadi, presidente da Associação dos Economistas do Euro-Mediterrâneo (EMEA, na sigla em inglês), que liderou a formação de um grupo de estudos sobre o tema em 2021.

Nos anos seguintes, Rym se tornaria cofundador do que hoje é a maior autoridade sobre capital cerebral no mundo: a Brain Capital Alliance, uma aliança internacional com especialistas de diversas áreas, da neurociência às políticas públicas, que representam entidades públicas e privadas. Os outros dois fundadores da entidade também têm nomes de peso: William Hynes, economista do Banco Mundial, e Paweł Świeboda, membro do European Policy Centre, organização independente de pesquisa e debate sobre políticas da União Europeia, com sede em Bruxelas.

Esse time ajudou a definir que “capital cerebral” é um conjunto de fatores físicos e socioculturais que permitem que o cérebro de um indivíduo se mantenha saudável e se desenvolva ao longo da vida. Seria possível medir o brain capital de um país, por exemplo, analisando três pilares: 1) os facilitadores de capital cerebral existentes ali; 2) a saúde cerebral da população; e 3) as habilidades cerebrais da população. Diversas dimensões expressam diferentes aspectos de cada pilar, e cada dimensão é mensurada por indicadores provenientes da Organização Mundial da Saúde, do Banco Mundial, da Unesco e de outras fontes desse calibre.

Os facilitadores de capital cerebral dizem respeito à qualidade do ambiente em que uma população está inserida. São os serviços de saúde e os aparelhos culturais disponíveis, a segurança alimentar, os níveis de escolaridade, o acesso à internet e até a qualidade do ar. Altos índices de violência e de desigualdade social, por exemplo, botam o capital cerebral lá embaixo.

Continua após a publicidade

O pilar da saúde cerebral, por sua vez, está ligado à prevenção e ao tratamento de distúrbios neurológicos e transtornos mentais. Mas também se refere à qualidade do sono, aos vícios, à existência de uma rede social estável e à autonomia dos indivíduos – ou seja, o “senso básico de controle” sobre alguns aspectos do mundo externo e sobre as próprias emoções. Uma alta prevalência de ansiedade, depressão, bipolaridade, esquizofrenia ou demência em um país, por exemplo, é um indicador negativo de capital cerebral.

O terceiro pilar, enfim, são as brain skills. Elas incluem habilidades cognitivas que são necessárias para lidar com o mundo externo, como foco, memória, criatividade e capacidade de resolução de problemas, mas também habilidades não cognitivas, necessárias para lidar com o mundo interno e com outras pessoas, como autoconhecimento, controle emocional, empatia e capacidade de interpretar as emoções alheias. Aqui, importam índices de escolaridade, desenvolvimento socioemocional e felicidade de uma população.

O resultado disso tudo não é um ranking com números fixos para cada país, como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mas o Brain Capital Dashboard: um mapa interativo com dezenas de indicadores, que você pode explorar selecionando um pilar e uma dimensão por vez, e com índices gerais para cada pilar.

Nessa história, o desempenho do Brasil é mediano e desigual: pontuamos muito bem no quesito “satisfação média com a própria vida”, por exemplo, e muito mal em “habilidades de leitura aos 15 anos”. Segundo as contas da EMEA, nossos índices gerais são 0,6 em “facilitadores”, 0,1 em “saúde cerebral” e 0,4 em “habilidades cerebrais”, sendo 1 o valor máximo que um país pode alcançar.

Continua após a publicidade

Por que isso importa

Esse novíssimo conceito, que vem sendo discutido principalmente por autoridades do tal primeiro mundo, ganhou mais força no último ano ao virar assunto de um relatório do Fórum Econômico Mundial, em parceria com o McKinsey Health Institute, chamado “A vantagem humana: fortalecendo cérebros na era da IA”.

O relatório argumenta que a inteligência artificial vai reconfigurar o trabalho no mundo, fazendo com que a competitividade dependa cada vez mais do “entrosamento entre forças humanas e máquinas”, e que países e empresas precisam, portanto, aprimorar suas estratégias para viabilizar essa colaboração. Isso demanda fluência tecnológica da parte dos trabalhadores, por exemplo, que só é possível obter com as habilidades cerebrais. Em um sentido mais amplo, essa adaptação depende dos recursos disponíveis, da saúde de uma população… daquele caminhão de aspectos mencionados acima que definem o capital cerebral de um país.

Pois bem: de volta às habilidades cerebrais. Segundo o Fórum Econômico Mundial, que consulta anualmente mais de mil empresas, em 55 economias e 22 setores para entender como evoluem as demandas dos empregadores, 59% dos profissionais precisam se requalificar para adquirir novas competências que serão necessárias até 2030. A lacuna de habilidades já seria um obstáculo para 63% dos empregadores quando o assunto é evitar que seus negócios se tornem obsoletos.

O relatório em parceria com a McKinsey afirma: “Quando se pergunta aos empregadores quais habilidades são mais essenciais no cenário atual e quais serão no futuro, há uma sobrerrepresentação clara das “habilidades cerebrais em ambas as categorias”. Veja no quadro abaixo.

Continua após a publicidade

(Brenna Oriá/Você S/A)

O que isso significa

A discussão sobre capital cerebral é, essencialmente, sobre saúde, educação e políticas públicas. Mas também é uma questão urgente para as empresas – o relatório mencionado acima argumenta, por exemplo, que o burnout, o absenteísmo e escassez de talentos já estão “restringindo o crescimento”.

Segundo Jacqueline Brassey, diretora de Saúde da Força de Trabalho no McKinsey Health Institute, as lideranças do mundo corporativo têm a faca e o queijo na mão. “[É necessário] colocar a saúde, o capital e as habilidades cerebrais no centro da gestão dos seus negócios. E isso começa hoje, com você [líder] cuidando da sua própria saúde cerebral e mostrando aos outros como faz isso.”

Investir em programas sérios de saúde e bem-estar dos funcionários, que acompanhem indicadores com frequência, é uma medida fundamental para as empresas. Outra é incorporar as habilidades cerebrais e o conceito de lifelong learning (ou seja, de aprendizado constante, ao longo do tempo) nos programas de capacitação. E, claro, cuidar para que o ambiente de trabalho seja propício ao desenvolvimento dessas competências. A criatividade não vai florescer em um escritório com funcionários sobrecarregados e zero tolerância ao erro e à experimentação. Da mesma forma, seu chefe não vai se preocupar em desenvolver inteligência emocional se a companhia vira as costas para a qualidade das relações que ele mantém com os empregados.

Continua após a publicidade

No nível individual, é principalmente uma questão de estilo de vida. Algumas pessoas buscam atalhos, como as smart drugs: substâncias originalmente desenvolvidas para tratar condições médicas, como TDAH ou narcolepsia, que se popularizaram entre profissionais do mundo corporativo que desejam turbinar a cognição, aumentar a produtividade e resistir ao cansaço. Mas essas drogas psicoestimulantes não parecem funcionar com pessoas fora da indicação original: pesquisadores de Cambridge e da Universidade de Melbourne já mostraram que as smart drugs podem, na verdade, piorar a performance e a produtividade entre quem não devia tomá-las. O mesmo vale para outros nootrópicos, ativos que supostamente potencializam as capacidades cognitivas, movimentam pelo menos 8 bilhões de dólares no mundo e se baseiam mais em marketing do que em ciência.

Não se engane: um bom desempenho cognitivo depende, na verdade, de fatores que você já cansou de ouvir. Boa alimentação e hidratação, sono de qualidade, exercícios físicos regulares e redução do estresse. É o simples que funciona – não existe pílula ou treino mágicos. Já o segredo para desenvolver habilidades cerebrais no presente e se proteger contra o envelhecimento do cérebro no futuro é… colocá-lo para trabalhar. Tenha um hobby, desafie-se constantemente a aprender novas coisas, converse com pessoas fora da sua bolha e viva experiências diferentes daquelas com que você está acostumado. Essas são atitudes que comprovadamente têm potencial para aumentar sua criatividade, além de prevenir a demência na velhice.

Perceba, por fim, que boa parte das habilidades mais importantes para o futuro do trabalho têm a ver com seu interesse em entender o mundo e você mesmo, em se conectar com as pessoas à sua volta. Conrado Schlochauer, doutor em Psicologia da Aprendizagem pela Universidade de São Paulo e colunista da Você RH, afirma justamente que “nossa vantagem competitiva está em desenvolver as capacidades que emergem apenas da experiência vivida: julgamento contextual, empatia genuína, criatividade que nasce da combinação improvável de vivências, resiliência emocional e capacidade de navegar pela ambiguidade de um mundo cheio de contradições”. Coisa que máquina nenhuma pode fazer.

“Soft skills” é um rótulo ultrapassado. Agora, você precisa de “brain skills”



Fonte ==> Você SA

Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *