A balança invisível: como o inconsciente dita os resultados do seu treino e da sua dieta

Rodrigo Rezende

Por Rodrigo Rezende

Como Profissional de Educação Física e especialista em nutrição esportiva, passei anos prescrevendo planilhas rigorosas e dietas milimetricamente calculadas. E, ao longo desse tempo, deparei-me com um fenômeno fascinante e ao mesmo tempo frustrante: pacientes que faziam tudo “certo” no papel, mas cujos corpos simplesmente se recusavam a mudar. Outros, subitamente, abandonavam todo o processo, entregando-se à autossabotagem quando estavam prestes a atingir seus objetivos.

A ciência mecanicista diria que faltou disciplina ou que houve um erro no cálculo do déficit calórico. Mas, ao mergulhar na Psicanálise e na Psicoterapia Holística, encontrei a verdadeira peça que faltava nesse quebra-cabeça: o corpo físico é, muitas vezes, o palco onde a mente encena suas dores não resolvidas.

Rodrigo Rezende

O corpo como armadura e esconderijo

A psicossomática nos ensina que o sintoma físico carrega uma mensagem emocional profunda. Na clínica, observamos que o tecido adiposo (a gordura corporal) muitas vezes não é apenas um acúmulo de energia, mas uma verdadeira “camada de proteção” inconsciente. O indivíduo, ferido por traumas passados, abusos ou inseguranças severas, constrói uma barreira física para se distanciar do mundo e evitar a intimidade ou o sofrimento.

De forma muito semelhante, a busca obsessiva por uma hipertrofia muscular extrema, o “ficar gigante” a qualquer custo, pode atuar como a construção de uma armadura. Por trás de músculos intransponíveis, frequentemente se esconde um ego fragilizado que tenta, desesperadamente, projetar força para disfarçar sua vulnerabilidade emocional.

“Não basta calcular macronutrientes ou repetições; é preciso entender qual dor emocional o corpo está tentando anestesiar ou esconder.”

O treino como punição: a ditadura do Superego

Um dos padrões mais destrutivos que observo é a relação punitiva com o exercício físico. O paciente come algo fora da dieta, movido, quase sempre, por uma fome emocional e impulsos que remetem à oralidade infantil, e, em seguida, é tomado por uma culpa avassaladora. O exercício deixa de ser um momento de autocuidado e saúde para se transformar em um chicote.

Na psicanálise, reconhecemos aí a atuação de um Superego rígido e sádico. “Comi o que não devia, agora preciso sofrer na esteira para queimar o pecado”. Esse ciclo gera um estresse crônico elevadíssimo, aumentando a produção de cortisol, inflamando o organismo e, ironicamente, bloqueando vias metabólicas fundamentais para o emagrecimento e a regeneração celular. O corpo entra em estado de alerta e passa a estocar energia, temendo novas agressões.

A fronteira do autocuidado

Quando o exercício é feito pelo Ego saudável, ele é prazer, movimento e superação. Quando é comandado pelo Superego punitivo, ele é exaustão, lesão e sofrimento. Mudar o corpo exige, primeiro, mudar a instância mental que governa as suas escolhas.

Rodrigo Rezende

Fome de comida ou fome de afeto?

A nutrição esportiva lida com a biologia da ingestão de nutrientes. A psicanálise lida com a pulsão. A nossa primeira experiência de amor, conforto e saciedade na vida se dá através da boca, durante a amamentação. É natural que, diante da angústia, do luto, do estresse ou da solidão, o adulto busque inconscientemente aquele mesmo alívio oral.

Por isso as dietas puramente restritivas falham tanto a longo prazo. Cortar o alimento “conforto” sem oferecer ao paciente ferramentas psicológicas para lidar com a ansiedade é como tirar a muleta de alguém que ainda não curou a perna quebrada. A restrição gera tensão, a tensão exige descarga, e a descarga vem através da compulsão alimentar. É o retorno do reprimido encenado na geladeira de madrugada.

A cura integrada: quando o músculo e a alma conversam

Nós precisamos parar de tratar seres humanos como máquinas matemáticas de “calorias que entram x calorias que saem”. O processo de mudança de hábitos e transformação corporal precisa, urgentemente, ser conduzido por uma escuta ativa e empática.

Rodrigo Rezende

Como terapeutas do corpo e da mente, nosso papel é ajudar o indivíduo a descobrir o porquê de suas resistências. Quando a energia psíquica antes usada para manter o sofrimento ou a armadura defensiva é liberada (através do autoconhecimento e da elaboração do trauma), o corpo físico finalmente se permite mudar.

“O verdadeiro sucesso na mudança corporal só ocorre quando o paciente faz as pazes consigo mesmo. Um corpo saudável só se sustenta quando é habitado por uma mente livre.”

A beleza da prática multidisciplinar é justamente essa: alinhar a biomecânica perfeita com uma psique fortalecida. Ensinar o paciente a treinar não porque odeia a própria imagem, mas porque ama o que o seu corpo é capaz de fazer. Quando a alma do atleta encontra a paz, o corpo físico naturalmente entrega o seu melhor desempenho.

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Rodrigo Rezende é Profissional de Educação Física, registrado no CREF 011394-G/MS, American Fitness Trainer & Coach em Nutrição Esportiva e Exercício. É especialista em Biomecânica, Fisiologia do Exercício e Psicanálise.

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