Da Paraíba para São Paulo: ator rompe barreiras e leva teatro nordestino autoral aos grandes palcos

Arquivo pessoal

Luís Augusto Brito estreia “As Pereiras” na capital paulista e transforma trajetória marcada por preconceito em potência criativa

Sair de uma cidade com pouco mais de 14 mil habitantes, no interior da Paraíba, e chegar a São Paulo com uma peça autoral não é apenas um passo na carreira. Para Luís Augusto Brito, é um ato de resistência. Nordestino de Serra Branca, ele carrega no corpo e na voz não só o sotaque, mas também as histórias, as memórias e, muitas vezes, o peso do preconceito que insiste em atravessar o caminho de quem vem do Nordeste em busca de espaço no eixo cultural do país.

A estreia de “As Pereiras”, prevista para agosto na capital paulista, marca a primeira vez do ator em cartaz na cidade com um espetáculo autoral. A peça nasceu em 2023 e foi criada por Luís Augusto Brito ao lado de Cleyton Araújo e Ygor Edward, em uma produção independente construída fora dos grandes centros culturais e financiada com recursos próprios. Hoje, o espetáculo atravessa fronteiras geográficas e simbólicas ao chegar aos palcos paulistanos.

“A peça tem uma importância muito grande para mim. Porque eu montei ainda muito jovem, inspirado nas nossas mães e também em pessoas conhecidas da minha cidade. O desafio será transformar a linguagem da peça em algo mais universal. Saio de uma cidade de 14 mil habitantes para explorar São Paulo. É uma peça independente, tiramos do nosso bolso para manter. Quando começamos, vendíamos os ingressos por cinco reais. É um avanço muito grande para nós. Mas sabemos que teremos um público fiel, muitos nordestinos moram em São Paulo. E temos muitos conterrâneos de Serra Branca que moram na cidade também. Me dá medo, mas vou com medo mesmo.”

O medo, aliás, não é novidade. Desde cedo, Luís aprendeu que sonhar com arte em um lugar sem acesso a teatro, cinema ou formação artística exige mais do que talento. Exige insistência. Aos nove anos, começou a estudar atuação sozinho, dentro de casa, lendo livros. Anos depois, fundou sua própria companhia, a Casa dos Atores, criando as oportunidades que não existiam.

“Naquela época, minha cidade não tinha muitos habitantes. Nunca tivemos ações ligadas à cultura ou teatro. Sonhar com um futuro de artista parecia uma realidade muito distante do que eu vivia. Quando percebi que as portas não estavam se abrindo, decidi criar minhas próprias oportunidades e buscar meus sonhos.”

Essa decisão o levou também para a internet. Com vídeos de humor, conquistou milhões de seguidores e transformou as redes sociais em vitrine para seu trabalho. Hoje, soma mais de 100 milhões de visualizações no TikTok e mais de 1,6 milhão de seguidores no Instagram. Ainda assim, o teatro segue como base e propósito.

“As Pereiras” mistura humor popular nordestino com elementos de tragicomédia. No palco, três irmãs idosas vivem isoladas em uma casa no interior do Nordeste, entre conflitos, memórias e situações absurdas. Por trás do riso, a peça aborda solidão, envelhecimento e relações familiares, temas universais que atravessam qualquer território.

A linguagem é assumidamente regional, com humor exagerado e situações grotescas que reforçam o tom crítico da narrativa. O cenário, uma casa antiga e desgastada, funciona quase como um personagem, refletindo o abandono, o tempo e o estado emocional das protagonistas. A iluminação ajuda a construir uma atmosfera que transita entre o cômico e o suspense, ampliando a experiência do público.

Levar esse universo para São Paulo, no entanto, não é apenas uma expansão de público. É também um enfrentamento direto a estigmas históricos.

“Ser nordestino em certos espaços ainda significa ter que provar o tempo todo que você é capaz. Muitas portas se fecham antes mesmo de você entrar. Mas eu nunca esperei autorização. Eu fui criando meu caminho.”

Esse caminho já inclui cinema, televisão e novos projetos no audiovisual. No longa “Ciclos”, dirigido por Luzildo Queiroz, ele mergulhou em um personagem que dialoga com suas próprias origens. Agora, planeja criar uma novela vertical e investir ainda mais em formação profissional.

Apesar dos novos horizontes, o teatro continua sendo o ponto de partida. E também de retorno.

“É uma peça que fala de onde eu vim. E, de alguma forma, também fala de onde eu quero chegar.”

A expectativa é que, após a temporada em São Paulo, o espetáculo circule por outras cidades do Brasil. Um movimento que não apenas amplia o alcance da obra, mas também reafirma o lugar do teatro nordestino dentro da cena nacional.

No fim, mais do que uma estreia, “As Pereiras” representa um gesto. Um artista que saiu do interior, enfrentou barreiras e agora ocupa o palco com a própria história. Não pedindo espaço, mas criando.

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