Novo padrão global de qualidade transforma indústria do couro e eleva exigências para fornecedores brasileiros

Alexandre S Moraes

Rastreabilidade total, testes laboratoriais mais rigorosos e compliance ambiental passam a definir quais empresas permanecem nas cadeias globais de luxo e varejo premium

Durante décadas, a indústria do couro foi sustentada por critérios tradicionais de qualidade, como aparência estética, resistência e capacidade produtiva. Em 2025, esse cenário mudou de forma significativa: grandes marcas globais passaram a exigir um novo padrão de qualidade que vai muito além do produto final e inclui rastreabilidade total da matéria-prima, controle químico rigoroso, conformidade ambiental e transparência em toda a cadeia produtiva.

Na prática, fornecedores que antes eram avaliados apenas pela entrega e pelo custo passaram a enfrentar auditorias mais complexas e exigências técnicas mais rígidas para continuar atendendo marcas internacionais dos setores de moda, luxo, automotivo e mobiliário.

O movimento ganhou força principalmente após a Europa acelerar novas regras de rastreabilidade para matérias-primas e o próprio setor global de couro avançar na criação de padrões unificados.

Em 2025, o Comitê Europeu de Normalização (CEN) avançou com a proposta da norma prEN 18199:2025, que estabelece requisitos mínimos de rastreabilidade para a cadeia global do couro. O texto determina que empresas consigam rastrear a matéria-prima até as fazendas de origem ou áreas de caça, além de manter evidências documentais de toda a cadeia de custódia. A iniciativa reflete a crescente pressão internacional por maior transparência em temas como origem animal, sustentabilidade e riscos trabalhistas.

Paralelamente, o próprio setor global endureceu seus critérios técnicos. Em fevereiro de 2025, COTANCE anunciou que o Leather Traceability Cluster, grupo formado por OEKO-TEX, Leather Working Group, Sustainable Leather Foundation e ICEC, aprovou novos requisitos mínimos internacionais de rastreabilidade para a cadeia do couro. Um mês antes, a OEKO-TEX passou a exigir comprovação obrigatória de origem para peles bovinas em suas certificações. Já o Leather Working Group, responsável por auditar mais de um terço da produção global de couro acabado, ampliou em 2025 consultas para reforçar exigências de rastreamento e due diligence. Paralelamente, testes laboratoriais mais rigorosos passaram a avaliar substâncias químicas restritas, resistência física e conformidade ambiental dos materiais.

A pressão é especialmente relevante para o Brasil. Segundo o Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil, o país encerrou 2024 com US$ 1,26 bilhão em exportações de couro, alta de 12,5% em relação ao ano anterior, mantendo posição estratégica no mercado internacional. Quanto maior a participação global, maior também a cobrança por conformidade técnica e ambiental.

Para Alexandre Santarem de Moraes, especialista em materiais, couro e cadeia global de fornecimento com mais de 15 anos de experiência internacional, incluindo oito anos atuando na China, o conceito de qualidade passou por uma transformação profunda.

“Antes, muitas empresas eram avaliadas apenas pelo visual do couro e pela capacidade de entrega. Hoje qualidade significa rastreabilidade completa, consistência técnica, segurança química e sustentabilidade comprovada. O mercado ficou muito mais exigente”, explica.

Com passagens por Tory Burch, Camuto Group, ISA TanTec, JBS Couros e atualmente na Quince, Moraes afirma que o setor vive uma mudança estrutural impulsionada principalmente por marcas de luxo e grandes varejistas internacionais.

“Hoje um fornecedor pode perder contratos por não conseguir comprovar a origem do couro, por falhas em testes químicos ou por inconsistência entre lotes. Pequenos erros que antes eram tolerados agora representam grandes riscos comerciais”, afirma Moraes.

Segundo ele, empresas brasileiras precisam acelerar investimentos para acompanhar essa transformação, principalmente no que diz respeito a laboratórios internos, digitalização da rastreabilidade, auditorias frequentes, qualificação técnica das equipes e padronização mais rígida dos processos industriais.

Na avaliação de Moraes, o novo padrão de qualidade não é apenas uma exigência regulatória. Ele está redefinindo quem vai permanecer competitivo nos próximos anos.

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