Limites na infância e adolescência e como a falta deles gera impactos diretos no ambiente corporativo, educacional e na economia.

A Conta da Ausência de Limites: Como a Falta de ‘Não’ na Infância Gera um Prejuízo Bilionário para Empresas e a Sociedade

Investir em limites na criação dos filhos não é apenas uma questão de educação familiar, mas uma estratégia fundamental para a saúde corporativa, a produtividade e a sustentabilidade da economia do cuidado.

Uma criança mimada que, ao menor sinal de contrariedade, desaba em um choro escandaloso até conseguir exatamente o que quer. Pode até ser uma cena, cômica na ficção, espelha uma realidade cada vez mais presente e preocupante em nossa sociedade: a formação de uma geração que cresce com pouca ou nenhuma exposição à frustração. Na idade adulta, a criança cresceu, formou-se e está sentado na mesa ao lado, no seu time. E o custo de sua dificuldade em lidar com um “não” está saindo caro para todos.

A discussão sobre limites na infância e adolescência transcendeu o divã e os manuais de parentalidade para se tornar uma pauta econômica urgente. A ausência de uma estrutura clara de regras e consequências durante o desenvolvimento não apenas molda indivíduos; ela forja profissionais que, anos mais tarde, impactam diretamente a dinâmica, a cultura e os resultados financeiros do ambiente corporativo.

Da Birra Infantil ao Conflito Corporativo: A Raiz Psicológica do Problema

Para compreender o impacto no presente, é preciso revisitar o passado. A psicologia nos oferece bases sólidas para essa análise.

A Função do Limite na Estruturação do Eu: O psicanalista Jacques Lacan, com o conceito da “Função Paterna” ou “Nome-do-Pai”, não se referia à figura do pai biológico, mas à instância simbólica da lei, da regra, do “não” que interdita o gozo absoluto. É essa intervenção que organiza o psiquismo, ensinando à criança que o mundo não gira em seu redor e que o desejo do outro também existe. Sem essa baliza, o indivíduo pode desenvolver uma estrutura narcísica frágil, onde qualquer obstáculo é visto como uma afronta pessoal intolerável.

Tolerância à Frustração como Músculo Emocional: O pediatra e psicanalista Donald Winnicott defendia que a “mãe suficientemente boa” não é aquela que atende a todos os desejos do bebê imediatamente, mas aquela que permite doses homeopáticas e seguras de frustração. Esperar pelo alimento, aprender a se acalmar sozinho, entender que a atenção não é exclusiva — esses são os primeiros treinos para o desenvolvimento da resiliência. Uma criança que não exercita esse “músculo” da tolerância à frustração se torna um adulto que “quebra” diante da primeira meta não batida ou do primeiro feedback negativo.

Ainda dentro da Terapia Familiar, os estudiosos e teóricos da Escola do Palo Alto: Gregory Bateson, Virginia Satir, Jacob Moreno e outros identificaram os modelos de comunicação que favorecem uma adequada comunicação familiar, promovendo fluidez, equilíbrio e maturidade, e também possibilitando a percepção do amor. Nas estruturas familiares e de comunicação estão presentes conceitos como hierarquia, ordem e engajamento, conceitos controversos na atualidade, que também fazem parte das Abordagens Sistêmicas.

O indivíduo que cresce distante do aprendizado de limite, que para tanto necessita aprender: respeito a hierarquia, a ordem (quem veio primeiro tem prioridade) e o engajamento (pertencimento) não será funcional em nenhum ambiente, pois todos os sistemas tem essas regras como base.

Quando esses indivíduos chegam ao mercado de trabalho, o cenário é previsível:

Dificuldade com Hierarquia e Regras: Enxergam prazos, metas e diretrizes como imposições arbitrárias, não como parte da organização necessária para o funcionamento do negócio.

Incapacidade de Receber Feedback: Qualquer crítica construtiva é interpretada como um ataque pessoal, gerando reações defensivas, melindres ou mesmo retaliação.

Conflitos Interpessoais: A dificuldade em negociar, ceder e colaborar transforma o ambiente de equipe em um campo minado de disputas de ego.

Baixa Resiliência: Diante de projetos desafiadores ou falhas, a tendência é a desistência, a procrastinação ou a busca por culpados externos.

O Impacto Econômico: A Fatura Chegou

O que começa como um desafio comportamental rapidamente se converte em perdas financeiras concretas para as empresas e para a sociedade.

Queda de Produtividade e Aumento de Afastamentos: Equipes com membros de baixa inteligência emocional gastam mais tempo gerenciando crises interpessoais do que produzindo. O estresse gerado por um ambiente tóxico é uma das principais causas de burnout, ansiedade e depressão, levando a um aumento vertiginoso nos custos com afastamentos e planos de saúde.

A Expansão da Economia do Cuidado: A demanda por soluções paliativas explode. Empresas investem pesado em:

Treinamentos de soft skills e inteligência emocional para tentar remediar lacunas de formação básica.

Programas de saúde mental e apoio psicológico (EAPs), que se tornaram indispensáveis.

Serviços de mediação de conflitos e consultorias de RH para apagar incêndios constantes.

O Custo para as Famílias e o Sistema Educacional: A falta de diagnóstico e orientação precoce sobrecarrega o sistema. Pais, sentindo-se perdidos, buscam um mercado crescente de terapias, coaching parental e escolas com foco em educação socioemocional, gerando um custo financeiro e emocional significativo que poderia ser mitigado com informação de qualidade e intervenção na primeira infância.

A importância dos pais e da família nessa configuração de solução

A grande verdade é que a geração que deve educar e ensinar os limites também não está preparada, adoecida e fragilizada, viveu tempos com grande mudanças e adaptações, O mundo como foram criados se extinguiu e como atualizar o processo de educar, ensinar e amar?

Todos os avanços e mudanças são inegavelmente importantes, mas “por quê” os pais da atualidade entenderam que conceitos como hierarquia, ordem, pertencimento e equilíbrio no dar e receber perderam o valor?

Que acontecimentos e mudanças fizeram isso acontecer?

O educar, ensinar e amar são processos que não ocorrem somente pela fala e orientação, ao contrário, as crianças e adolescentes percebem as emoções e sentimentos dos seus pais, professores e mentores, eis aqui a resposta.

No cenário onde os pais trabalhavam muito, se sujeitando a condições abusivas, que instalam sintomas e até mesmo o Burnout, casas onde os pais estão ausentes e chegam cansados, muitas vezes empregadas e assistentes para apoiar que também estão cansados e exaustos. Mais professores mal remunerados e desassistidos. Todo o cenário da criação foi absorvido por essa geração, e por adaptabilidade não escolhem a mesma vida, ela gera sofrimento.

Mas “por que” essa geração se submeteu a isso? Escolheu performar no trabalho e deixar a família em segundo plano?

Desse lugar de ausência e sofrimento é quase impossível ensinar limites, a culpa pela ausência, falta de tempo com a família, exaustão fazem surgir um comportamento parental onde “tudo pode”.

Esse lugar é o lugar é onde nascem os principais problemas, além de ser permitido tudo, a culpa e essas emoções controversas, também fazem os pais quererem ter os melhores filhos possíveis para o mundo, e ou:

  • Olham para os filhos procurando um sintoma ou doença que expliquem porque eles não controlam os filhos
  • Não veem nunca os indícios de que os filhos não estão bem, não enxergam os defeitos

Essas duas atitudes deixam os pais em situação favorável, mas estão criando adultos disfuncionais. Jeffrey Young aponta através do comportamento dos pais, os tipos de Esquemas desadaptados nos indivíduos gerados pelos comportamentos dos pais na Terapia do Esquema. Esses esquemas se agrupam em cinco domínios: Desconexão e Rejeição (Abandono, Desconfiança/Abuso, Privação Emocional, Defectividade/Vergonha, Isolamento Social/Alienação); Autonomia e Desempenho Prejudicados (Dependência/Incompetência, Vulnerabilidade ao Dano, Emaranhamento, Fracasso); Limites Prejudicados ( Direito/Grandiosidade, Autocontrole/Autodisciplina Insuficientes); Direcionamento ao Outro (Submissão, Autossacrifício, Busca de Aprovação/Reconhecimento); e Supervigilância e Inibição (Negativismo/Pessimismo, Inibição Emocional, Padrões Inflexíveis, Punição).  Como podemos ver são a origem do que apontamos como as dificuldades nas empresas.

Entendo que uma solução verdadeira que ataque definitivamente a causa do problema atual, seja a Terapia Familiar, para que de fato seja possível ajustar essas relações que foram quebradas.

Se olharmos para o episódio recente do cão Orelha, de pronto apontaríamos para uma psicopatia dos garotos. Mas não sei se é totalmente correto, todos já vimos situações em que um irmão bate no outro, briga e esfola para chamar atenção dos pais, como também pais que espancam filhos, maridos que espancam mulheres. Não sabemos a história familiar, nem temos diagnóstico fechado, seria antiético apontar isso. Mas que é fruto de uma sociedade desoladora, onde limite e respeito se perderam e com eles tem-se uma impossibilidade de receber e dar afeto, isso é um fato.  

Todos os aspectos apontados nos levam a necessidade urgente de entendermos que tudo que fazemos envolve todos, não existe resultado que não gere impacto no todo, já dizia Carl Gustav Jung, portanto é necessário um movimento que envolva, família, escola, empresa, a sociedade como um todo.

Uma Abordagem Estratégica: Limite é Investimento, Não Punição

Se falarmos em empresa a boa notícia é que este é um problema com solução. A virada de chave está em redefinir o conceito de limite: não como um ato de autoritarismo, mas como um ato de amor e de preparação para a vida. É um “não” compassivo, que valida o sentimento da criança (“Eu entendo que você está frustrado por não poder ganhar o brinquedo agora”), mas mantém a fronteira (“mas hoje não vamos levar”).

Para líderes, gestores e profissionais de RH, a pauta é estratégica. Significa:

Investir em Lideranças Humanizadas: Capacitar gestores para oferecer feedback de forma assertiva e empática, e para saber mediar as fragilidades de suas equipes sem abrir mão das metas.

Promover uma Cultura de Segurança Psicológica: Criar um ambiente onde o erro é visto como parte do aprendizado e o diálogo é incentivado.

Valorizar a Inteligência Emocional no Recrutamento: Entender que habilidades comportamentais são tão ou mais importantes que as técnicas.

Quem sabe incluir ações que: envolvam a família e o reconhecimento delas, envolvam escolas e comunidades, clubes de empresas onde as famílias se conectam. Parte do novo modelo deixa muito a desejar e o custo é muito alto, soluções simples, talvez antigas, sejam menos custosas e mais eficientes.

No final, o debate sobre limites na infância é um debate sobre o futuro do nosso capital humano. Ignorá-lo é como construir um arranha-céu sobre fundações de areia. Empresas, líderes e famílias que compreenderem que impor um limite hoje é um investimento na formação de um profissional equilibrado, responsável e colaborativo amanhã, não estarão apenas criando filhos melhores ou equipes mais eficientes. Estarão construindo uma economia mais saudável, resiliente e, acima de tudo, mais humana. A conta da indulgência já está alta demais. É hora de começar a quitá-la.

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