Passamos o dia inteiro consumindo informação – no trabalho, nas redes sociais, nos streamings. Portanto, é normal que não tenhamos energia para aprender coisas novas, certo?
Pode até ser. Mas o aprendizado não precisa ser maçante e cansativo. Ele pode, inclusive, te dar mais energia.
Vamos primeiro ao cansaço.
Aprender algo novo significa fazer novas conexões neurais (ou sinapses), uma capacidade do sistema nervoso central chamada “neuroplasticidade”. É um processo que leva tempo e exige energia, afinal, o pensamento crítico e a reflexão consomem recursos cognitivos extras. O cansaço, portanto, é uma consequência fisiológica natural do aprendizado.
Ele também pode ser explicado por meio da “teoria da carga cognitiva”. Ela propõe que, devido à capacidade limitada de nossa memória operacional imediata (ou seja, nossa “memória RAM”) e à capacidade ilimitada de nossa memória de longo prazo, aprender algo novo demanda gerenciar os recursos mentais para minimizar cargas cognitivas irrelevantes. Em grosso modo: demanda selecionar os estímulos no presente para sustentar a aprendizagem do futuro.
Os pesquisadores que propõem essa teoria consideram a existência de três “cargas cognitivas”. A intrínseca consiste na dificuldade natural do que se quer aprender; depende da complexidade do conteúdo em questão e da proficiência do aprendiz. A relevante, por sua vez, é a energia dedicada a entender e conectar informações; ela contribui diretamente para a construção de “esquemas mentais”. A carga irrelevante, por fim, é todo ruído envolvido no processo de aprendizagem. Ele pode vir do próprio conteúdo – um texto mal escrito, por exemplo – ou de estímulos fragmentados e superficiais que nos distraem – as buzinas na rua e os latidos no vizinho. (1)
Dada nossa disposição finita de aprender em determinado momento, graças ao cansaço naturalmente embutido no processo, o segredo é afastar aquilo que consome nossa atenção mas não traz resultado – a carga irrelevante, claro.
E como ganhar mais satisfação e energia com o aprendizado?
Você precisa se manter motivado ao longo do caminho. O aprendizado deve estar associado à liberação de dopamina, substância envolvida nos circuitos de interesse e recompensa que ajudam a contrabalançar a fadiga. Para isso, você pode conectá-lo a interesses pessoais ou propósitos claros, por exemplo.
O aprendizado, assim, fica mais forte e sustentável. Forma-se um círculo virtuoso em que bons resultados alimentam a motivação, que por sua vez favorece o uso de melhores estratégias e renova a disposição para aprender. (2)
Três medidas práticas
Observo que esses dois fatores, a motivação intrínseca e a existência do ciclo virtuoso, são recorrentes na vida dos profissionais que continuam aprendendo, apesar dos desafios.
Esses profissionais…
- … não tratam o aprendizado como uma punição ou uma demanda extra. Encaram como uma oportunidade de se tornarem profissionais mais consistentes — e pessoas mais interessantes.
- … não reduzem o aprendizado a retornos imediatos. Entendem que seguir aprendendo é mais importante do que aplicar o novo conhecimento no curto prazo. Por isso, abrem espaço para conteúdos profundos, que ampliam a visão de mundo — não que apenas geram resultado hoje.
- … reconhecem e celebram pequenos avanços. Percebem valor no percurso, compartilham conquistas e levam outras pessoas junto.
O processo de aprender ganha outra cara quando está ligado à possibilidade de construir outros futuros. E isso não é discurso motivacional: está na nossa biologia.
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Fontes:
(1) Artigo “As dimensões da Carga Cognitiva e o Esforço Mental”, de Marcus Vinicius Costa Alves e colegas, publicado em 2017 na Revista Brasileira de Psicologia.
(2) Artigo “Neurociência e aprendizagem”, de Raquel Lima Silva Costa, publicado em 2023 na Revista Brasileira de Educação.
Fonte ==> Você SA