Entenda o que é meningite meningocócica bacteriana, doença em surto na Inglaterra

Entenda o que é meningite meningocócica bacteriana, doença em surto na Inglaterra

Desses 15 casos, quatro, incluindo as duas mortes, foram infecções meningocócicas “do grupo B”, raras, mas muito graves.

Os dois mortos são uma aluna do último ano do ensino médio, de 18 anos, da Queen Elizabeth’s Grammar School em Faversham, e um estudante de 21 anos da Universidade de Kent. Saiba mais sobre a doença a seguir.

O QUE É E QUAIS SÃO OS SINTOMAS?

Meningite é uma doença grave que atinge as meninges, a camada que protege todo o cérebro, afirma Rosana Richtmann, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas. A inflamação pode gerar dor de cabeça, febre, vômitos e até convulsão.

“O que assusta muito na meningite meningocócica é a rápida evolução entre o início dos sintomas e o paciente estar em coma grave e morrer. Estamos falando de 24 ou 48 horas”, afirma.

O período de incubação é curto. Após contato com a bactéria, com dois dias é possível já apresentar sinais no quadro clínico. A transmissão acontece através de gotículas respiratórias, ou seja, atos de tossir, falar e beijar podem transmitir a doença. Por isso, adultos jovens e adolescentes são mais propícios a carregarem a bactéria sem os sintomas, segundo a especialista. “Não é incomum a gente ver surtos em ambientes fechados, como no caso do Reino Unido”, acrescenta.

Os sintomas dependem da idade, segundo Renato Kfouri, pediatra infectologista. Crianças maiores e adolescentes têm febre alta, dor de cabeça e vômito. No exame, o sintoma clássico é a rigidez na nuca.

POR QUE PODE LEVAR À MORTE?

A meningite meningocócica desencadeia uma resposta inflamatória intensa no organismo. Quando a bactéria atinge o sistema nervoso central ou a corrente sanguínea, o corpo reage de forma exagerada, o que pode levar à falência de órgãos, afirma Alexandre Naime Barbosa, chefe do Departamento de Infectologia da Unesp.

“No caso da meningococcemia, ocorre uma espécie de tempestade inflamatória, com queda da pressão arterial, dificuldade de circulação e comprometimento de órgãos vitais como rins, pulmões e coração, também chamado de choque séptico”, diz o especialista. No cérebro, o processo pode aumentar a pressão do crânio, prejudicando funções essenciais.

COMO É O TRATAMENTO?

Segundo Naime, o tratamento é uma emergência e deve começar imediatamente, com antibióticos na veia. Os mais usados, diz ele, são as cefalosporinas de terceira geração, como a ceftriaxona, porque agem rápido e cobrem os casos suspeitos.

Mesmo assim, o risco de morte no Brasil gira em torno de 20%, diz Richtmann. “Do ponto de vista de pessoas que entraram em contato com a bactéria, o ideal, e o Reino Unido está fazendo isso, é logo tirar o estado de carreador de nasofaringe, ou seja, dar antibiótico para pessoas sem sintomas e que são candidatos a estarem carregando a bactéria, para tentar evitar que o surto se dissemine”, explica.

No país britânico, a letalidade é em torno de 10%, acrescenta Kfouri. “Tem a ver com diagnóstico precoce e instituição de tratamento rápido”.

O QUE É O SUBTIPO DO GRUPO B, QUE GEROU DUAS MORTES NA INGLATERRA?

O meningococo é classificado em diferentes sorogrupos, que são variações da bactéria com características imunológicas distintas, afirma Naime. O grupo B é um desses sorogrupos e tem particular relevância porque é uma causa importante de meningite em vários países, inclusive o Brasil.

“O desafio histórico é que ele é mais difícil de prevenir com vacinas tradicionais, porque sua estrutura é semelhante a componentes do próprio organismo humano, o que dificulta o desenvolvimento de imunizantes”, diz.

Apesar disso, já existem vacinas específicas contra o meningococo B, desenvolvidas com tecnologias mais modernas.

EXISTEM VACINAS?

Sim. Diversas bactérias podem causas a doença. No Brasil, a vacina meningocócica C faz parte do calendário infantil do SUS (Sistema Único de Saúde), segundo Naime, com impactos comprovados na redução de casos graves.

Além dela, existe a vacina ACWY, que protege contra os quatro sorogrupos e está no Programa Nacional de Imunizações.

Já a vacina contra o meningococo B, que cobre o tipo da bactéria que causou as duas mortes no Reino Unidos, não está disponível no SUS, conforme Kfouri. A indicação para esses imunizantes pode variar conforme idade, risco e disponibilidade.



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