Helena Fraga
O Carnaval sempre foi, para mim, um divisor de águas. Mais do que uma festa pagã ou um feriado no calendário, ele carrega um sentido quase ritualístico: é o antecessor necessário aos dias de quaresma e recolhimento. Mas, ao longo dos anos, minha percepção sobre essa data evoluiu. Se antes eu enxergava apenas o confete e a serpentina, hoje, com o olhar lapidado pelo mercado e pela gestão, vejo o Carnaval como uma das maiores lições de logística, marketing e resiliência do mundo corporativo.
Minhas lembranças mais remotas remetem às matinês no Clube Vasco da Gama. Minha mãe nos levava, a meu irmão e a mim, mergulhando-nos em um universo de cores. Íamos acompanhados pela Dona Irene e minhas amigas de infância, Vera e Alice. Eram tempos de uma segurança quase lúdica, onde o maior perigo era o cansaço extremo após horas de pulos e risadas.
Chegávamos em casa com os pés “em carvão”, suados, mas com a alma lavada. Os confetes grudados no corpo eram os troféus de uma tarde bem vivida. Naquelas matinês de domingo e terça-feira de Momo, dormíamos como anjinhos. Mal sabíamos que, ali, já experimentávamos o conceito de entrega total a um projeto, mesmo que o projeto fosse apenas a alegria pura.
Os anos passaram e o formato da folia se transformou. Na juventude, a saudade me leva a Monte Alto, a terra da fábrica da CICA – Companhia Industrial de Conservas Alimentícias. A marca foi extinta em 2003 e era famosa pelo extrato de tomate “Elefante”.
Foram anos de descobertas e amores perdidos nos bailes do clube local. Ficávamos na casa da Tia Janete, em uma convivência deliciosa com o Luciano, a Sonia e a Monica. A logística era simples, mas rigorosa: chegávamos de ônibus na sexta à noite e só partíamos na terça-feira após o almoço, praticamente dormindo a viagem inteira de tão exaustas que estávamos.
O que mais me marcou não foram apenas os bailes, mas o aconchego e a hospitalidade da Dona Janete: o pão feito em casa com manteiga derretendo, o leite fresco vindo das fazendas vizinhas e aquele café cheiroso que nos despertava quando voltávamos como colombinas e pierrôs exaustos. Havia um romantismo intrínseco. Olhares sorrateiros, promessas de reencontro no próximo ano e trocas de telefones anotados em guardanapos ao alvorecer da Quarta-Feira de Cinzas. Poucos desses amores vingaram, mas as lembranças aquecem o coração até hoje. Algumas histórias ficarão para sempre gravadas naquele canto do baú que não pode ser aberto, para que o passado não venha à tona com memórias fugazes e “proibidas”.
O mundo mudou. Vieram os desfiles suntuosos, os trios elétricos arrastando multidões e o ressurgimento do carnaval de rua. Com a chegada dos filhos e das responsabilidades, o foco mudou. As marchinhas inocentes deram lugar a ritmos mais frenéticos. A segurança tornou-se uma preocupação latente, mas o brilho não se apagou.
Durante muito tempo, o Carnaval era o meu momento de “miniférias” ao lado das crianças. Passamos anos em Águas de Lindoia, onde o ritual envolvia comprar fantasias novas na lojinha especializada da cidade e participar da batalha de confete na rua principal. Era fascinante observar a cidade se transformando para receber o turista. Ali, eu, que já era empresária, notava como a economia local dependia visceralmente daqueles quatro dias de folia.
Houve carnavais de estudo também, como o ano em que troquei o samba pelos livros para me preparar para o mestrado. Sem dúvida, um Momo inesquecível. Aprender economia em três dias e dar atenção para duas crianças… fico pensando até hoje: como consegui esse feito? O fato é que acabei sendo a primeira colocada no exame e valeu o esforço.
Em 2022, conheci o Sambódromo com minha querida amiga Teresa Cristina — ou a comadre Te Cris. Foi um momento maravilhoso. Não vi minha Beija-Flor desfilar, entretanto, a emoção de assistir à Mangueira entrar na avenida gerou fotos inesquecíveis. Literalmente compreendi o que é uma Escola levantar a avenida.
Cada fase da vida pediu um Carnaval diferente: do glamour das avenidas ao aconchego do sofá, assistindo aos desfiles de São Paulo, Rio e Santos pela televisão. Menos barulho, mais cuidado.
É aqui que o meu olhar de jornalista e gestora se choca com a cultura popular. No Brasil, existe uma frase feita, quase um mantra: “O ano só começa depois do Carnaval”. Para o senso comum, o país entra em um hiato entre o Natal e as Cinzas; as decisões são postergadas e o mundo corporativo entra em modo de espera.
Mas será que é assim mesmo?
Para quem está na ponta da pirâmide — os CEOs, gerentes e empreendedores —, o Carnaval é tudo, menos uma pausa. Enquanto o público se diverte, a engrenagem invisível do mercado gira com uma velocidade furiosa. O marketing não pode parar; as contas não param de chegar. Pelo contrário: para muitos setores, o Carnaval é o “pico de faturamento” que sustenta o restante do semestre.
Na nossa empresa — que é do setor de varejo automotivo — é momento de vendas e serviços para os clientes que têm carro ou moto. Ajustar a máquina para viajar, comprar acessórios para um momento especial em família, trocar o óleo e os pneus para garantir a segurança. É a hora da revisão antes de pegar a estrada e, depois, de reparar os desgastes desse tempo de folia. Se analisarmos sob a ótica da gestão, principalmente no varejo, é o momento perfeito para criar fôlego e caixa para os próximos meses.
Além disso, imagine a logística por trás de uma escola de samba ou de um grande evento de rua. Estamos falando de gestão de pessoas, suprimentos, cronogramas rígidos e gerenciamento de crises em tempo real. É o mundo corporativo em sua forma mais vibrante e caótica.
Às vezes, vivemos o mundo físico e não imaginamos como, de fato, as empresas acontecem nos bastidores. Para o pequeno empreendedor, o Carnaval é a grande oportunidade de lucrar. Seja no turismo, na alimentação ou no setor de serviços, a necessidade do consumidor não tira férias; ela apenas muda de endereço.
Para quem não está na linha de frente do atendimento ao público, o feriado é o momento de “rever as estruturas”. É o silêncio necessário para planejar os projetos que serão executados na Quarta-Feira de Cinzas. Enquanto muitos acreditam que nada acontece, as lideranças estão redesenhando fluxos, analisando métricas do primeiro bimestre e preparando o lançamento de novos produtos.
Se não houvesse essa engrenagem mantendo as cidades e o país funcionando durante os dias de folia, viveríamos o caos total. Não teríamos segurança, transporte, energia ou abastecimento. Em consequência, não teríamos a “maior festa do planeta”. O sucesso do Carnaval é, em última instância, um sucesso de gestão.
Hoje, olhando para o meu próprio percurso — de escritora de poesias a mentora e empresária —, percebo que o Carnaval é a metáfora perfeita para a carreira. Precisamos do momento do confete, da celebração e da memória afetiva. Precisamos honrar a criança que pulava no Vasco da Gama e a jovem que se encantava em Monte Alto.
No entanto, precisamos também da lucidez do dia seguinte. O “depois do Carnaval” não deve ser encarado como um começo tardio, mas como a continuidade de um trabalho que nunca parou — na verdade, que nunca para.
Que possamos aproveitar a folia para recarregar o “baú de memórias”, mas sem esquecer que a engrenagem dos nossos sonhos e negócios exige manutenção constante. Afinal, a vida, assim como o mercado, não espera o último tamborim calar para continuar exigindo o nosso melhor.
Que venha a Quarta-Feira de Cinzas, pois os nossos projetos já estão prontos para ganhar o mundo.