Alzheimer também é doença vascular – 12/03/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Estrutura complexa de linhas entrelaçadas em tons de azul, amarelo e vermelho sobre fundo preto, simulando conexões neurais ou rede de dados.

A pandemia fez estragos variados pelo mundo, e meu laboratório não ficou para trás: não pude renovar o contrato da pesquisadora brasileira Lissa Ventura-Antunes, supercraque em microscopia, que trabalhava comigo desde a iniciação científica. Ruim para mim, mas, ainda bem, ótimo para ela. Lissa foi contratada por meu colega Matthew Shrag, também na Universidade Vanderbilt, que estuda um aspecto ainda menosprezado da doença de Alzheimer: os danos à circulação cerebral.

Lissa doutorou-se comigo estudando a distribuição de capilares cerebrais e sua relação com o fluxo sanguíneo e o uso de oxigênio e energia no cérebro. São dela as lindas imagens e quantificações que mostram que os capilares do cérebro adulto não estão nem aí para onde neurônios e sinapses são mais numerosos: como os braços de um rio que servem várias comunidades, eles são o que são e dão o que dão, e os usuários que se virem com o que está disponível.

A comparação com um rio é fundamental. Como mostrei a seguir com meu colega Douglas Rothman, da Universidade Yale, o cérebro adulto usa toda a energia e oxigênio que consegue retirar do sangue que recebe. Isso é o contrário do que se acreditava até então, que a circulação cerebral era como um sistema de rodovias que permitem o fluxo de veículos de transporte sob demanda. Não é: os neurônios do cérebro recebem o sangue que dá e tiram daí o que podem. Se recebem menos, usam menos –e usar menos significa menos de tudo o que os neurônios afetados fazem.

Pois Lissa, Matthew e equipe demonstram, em um estudo disponível no bioRxiv, que a circulação cerebral é severamente comprometida na doença de Alzheimer. O comprometimento ocorre na forma de angiopatia cerebral amilóide (ACA). Tradução: doença dos vasos cerebrais causada pela deposição de peptídeo amilóide, aquele que é comum na doença de Alzheimer.

Que mais de 80% dos pacientes com Alzheimer têm algum grau de ACA já era sabido. A questão é que diferença isso faz. Usando microscopia tridimensional em bloquinhos de tecido cerebral doados pelas famílias de pacientes após sua morte, a equipe mostra que nos locais onde há deposição de amilóide em arteríolas cerebrais, estas perdem sua capacidade contrátil, ficam inchadas como varizes e enrijecem.

O resultado só pode ser péssimo. Se os capilares são os braços dos rios que servem às comunidades ribeirinhas, arteríolas são os troncos principais, e, se um lago começa a se formar rio acima, o fluxo rio abaixo diminui. Ainda é preciso ligar uma coisa à outra, mas é absolutamente esperado que um cérebro que começa a acumular amilóide em suas arteríolas terá fluxo sanguíneo diminuído e, portanto, função cerebral comprometida. Ambas as coisas ocorrem com a idade, sem amilóide, e de maneira muito pior na doença de Alzheimer, com amilóide.

Exceto nos supervelhinhos, que, como eu já disse aqui, têm circulação e função cerebral preservadas, e zero Alzheimer. O que fazer para ser um deles? Genética à parte, pois esta é loteria, agir pela saúde vascular do nosso cérebro está ao alcance de todos. Você já conhece a fórmula: exercício, boa alimentação, escolhas saudáveis. Dá trabalho, mas a escolha é toda sua…

Referências

Herculano-Houzel S, Rothman DL (2022). From a demand-based to a supply-limited framework of brain function. Front Integr Neurosci 16, 818685.

Ventura-Antunes L, Herculano-Houzel S (2022). Energy supply per neuron is constrained by capillary density in the mouse brain. Front Integr Neurosci 16, 760887

Ventura-Antunes L et al. (2024). Arteriolar degeneration and stiffness in cerebral amyloid angiopathy are linked to b-amyloid deposition and lysyl oxidase. bioRxiv.

Yang FN, Xie L, Galli O, Detre JA, Wolk DA, Rao H (2019). Preserved global cerebral blood flow accounts for youthful processing speed in older adults. bioRxiv.



Folha SP

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