Finalmente apareceu uma instrutora no pilates que eu detesto. Adepta desta forma de exercício há 20 anos, eu gosto das instrutoras cruéis, que inventam exercícios difíceis e despertam músculos adormecidos. Mas esta novata é sem-noção: abandona a gente em repetições infindáveis, depois muda o exercício, mas continua insistindo nos mesmos músculos.
Não há oxigênio que chegue. Os músculos afetados continuam quebrando glicose, que é de onde vem a energia, mas muito mais rápido do que o oxigênio trazido pelo sangue consegue consumir. O resultado é o acúmulo da dupla piruvato/lactato, moléculas intercambiáveis que o músculo, exausto e acidificado, aos poucos libera para o sangue. Nos músculos já acidificados, o lactato exacerba a sensação de ardência. E assim a gente para com o exercício que já estava passando da conta.
Mas são muitas horas de dor até o lactato ir todo embora dos músculos, redistribuído pelo corpo. O fígado e os rins o retiram do sangue e transformam em estoque de glicogênio para um dia chuvoso. O cérebro também: os astrócitos transformam lactato em glicogênio para consumo próprio, deixando a glicose para os neurônios.
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O problema é que enquanto o lactato está elevado no cérebro, como acabei de descobrir ao botar a literatura em dia, ele é um excelente candidato a causa da fadiga mental. E, em princípio, não importa se o lactato vem de dentro ou de fora: lactato é lactato, ácido é ácido, e o resultado é a mesma dor incessante e exaustão física e mental.
Hmm. Fadiga muscular, fadiga mental, tudo começando com oxigenação insuficiente. Eu só sofro desse problema após exposição a instrutoras sem-noção. Mas minha filha, tadinha, padece há anos de dor crônica incapacitante, que permaneceu mesmo depois da endometriose tratada, acompanhada de fadiga mental e hipersensibilidade a sons e à própria dor. O diagnóstico, que confesso que sempre me pareceu sinal de médicos jogando a toalha, na versão adulta do “é uma virose” pediátrica, era fibromialgia.
Eu duvidava que “fibromialgia” fosse mais do que um rótulo descritivo para qualquer uma de várias doenças crônicas indeterminadas. Mas, com a relação entre lactato e fadiga cerebral em mente, a Neurocientista de Plantão foi revirar a literatura: quais eram as chances de a fibromialgia ser uma versão renitente de metabolismo oxidativo insuficiente, que leva a um quadro sistêmico de acidose e acúmulo de piruvato/lactato, que nos músculos se expressa como dor constante, e no cérebro, como fadiga e brain fog?
Bingo: há especialistas no assunto começando a suspeitar da mesma coisa.
A beleza de ter uma hipótese nova é que hipóteses, por definição, são testáveis. Se o problema é alguma insuficiência metabólica que impede a queima completa do piruvato, e daí tudo desanda, então aumentar a capacidade oxidativa deveria mudar tudo. O que faz isso acontecer é exercício. Nesse ponto, a fibromialgia é uma profecia autorrealizada, onde a dor impede o exercício, que causa mais dor e ainda menos exercício.
A Neurocientista de Plantão virou Dra. Mamãe, marcou consulta com a filha, que já toma toda a medicação possível e necessária, e prescreveu, com ou sem dor, exercícios diários de baixa intensidade — bicicleta ergométrica suave, caminhada— e exercícios de respiração. A paciente, até o momento, tem se comportado. Veremos o que acontece…