Acúmulo de ácidos nos músculos causa dor crônica – 05/02/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Três pessoas vestindo roupas esportivas estão usando esteiras alinhadas em uma academia. A imagem foca nos braços e pernas enquanto seguram os apoios das esteiras.

Finalmente apareceu uma instrutora no pilates que eu detesto. Adepta desta forma de exercício há 20 anos, eu gosto das instrutoras cruéis, que inventam exercícios difíceis e despertam músculos adormecidos. Mas esta novata é sem-noção: abandona a gente em repetições infindáveis, depois muda o exercício, mas continua insistindo nos mesmos músculos.

Não há oxigênio que chegue. Os músculos afetados continuam quebrando glicose, que é de onde vem a energia, mas muito mais rápido do que o oxigênio trazido pelo sangue consegue consumir. O resultado é o acúmulo da dupla piruvato/lactato, moléculas intercambiáveis que o músculo, exausto e acidificado, aos poucos libera para o sangue. Nos músculos já acidificados, o lactato exacerba a sensação de ardência. E assim a gente para com o exercício que já estava passando da conta.

Mas são muitas horas de dor até o lactato ir todo embora dos músculos, redistribuído pelo corpo. O fígado e os rins o retiram do sangue e transformam em estoque de glicogênio para um dia chuvoso. O cérebro também: os astrócitos transformam lactato em glicogênio para consumo próprio, deixando a glicose para os neurônios.

O problema é que enquanto o lactato está elevado no cérebro, como acabei de descobrir ao botar a literatura em dia, ele é um excelente candidato a causa da fadiga mental. E, em princípio, não importa se o lactato vem de dentro ou de fora: lactato é lactato, ácido é ácido, e o resultado é a mesma dor incessante e exaustão física e mental.

Hmm. Fadiga muscular, fadiga mental, tudo começando com oxigenação insuficiente. Eu só sofro desse problema após exposição a instrutoras sem-noção. Mas minha filha, tadinha, padece há anos de dor crônica incapacitante, que permaneceu mesmo depois da endometriose tratada, acompanhada de fadiga mental e hipersensibilidade a sons e à própria dor. O diagnóstico, que confesso que sempre me pareceu sinal de médicos jogando a toalha, na versão adulta do “é uma virose” pediátrica, era fibromialgia.

Eu duvidava que “fibromialgia” fosse mais do que um rótulo descritivo para qualquer uma de várias doenças crônicas indeterminadas. Mas, com a relação entre lactato e fadiga cerebral em mente, a Neurocientista de Plantão foi revirar a literatura: quais eram as chances de a fibromialgia ser uma versão renitente de metabolismo oxidativo insuficiente, que leva a um quadro sistêmico de acidose e acúmulo de piruvato/lactato, que nos músculos se expressa como dor constante, e no cérebro, como fadiga e brain fog?

Bingo: há especialistas no assunto começando a suspeitar da mesma coisa.

A beleza de ter uma hipótese nova é que hipóteses, por definição, são testáveis. Se o problema é alguma insuficiência metabólica que impede a queima completa do piruvato, e daí tudo desanda, então aumentar a capacidade oxidativa deveria mudar tudo. O que faz isso acontecer é exercício. Nesse ponto, a fibromialgia é uma profecia autorrealizada, onde a dor impede o exercício, que causa mais dor e ainda menos exercício.

A Neurocientista de Plantão virou Dra. Mamãe, marcou consulta com a filha, que já toma toda a medicação possível e necessária, e prescreveu, com ou sem dor, exercícios diários de baixa intensidade — bicicleta ergométrica suave, caminhada— e exercícios de respiração. A paciente, até o momento, tem se comportado. Veremos o que acontece…



Folha SP

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