Idosas aprendem a lutar boxe e ganham força e autoestima – 01/08/2026 – Equilíbrio

Homem idoso com roupa azul de boxe e luvas treina socos em saco de pancadas preto dentro de academia com paredes amarelas e decoração simples.

Por volta das 9h de uma terça-feira, quem passasse pela rua Conselheiro Ramalho, no bairro do Bixiga, na região central de São Paulo, provavelmente ouviria o som de luvas batendo em um saco de areia, seguido por incentivos incansáveis de um professor.

“Mais rápido. Mão no rosto. Jab [soco]. Direto. Quatro retos. Gancho. Bora, sem parar. Rápido e forte”, repetia Wellinton Souza.

Nada incomum para uma aula de boxe. Exceto pelo fato de que, ao lado de Wellinton, quem repetia “estou cansada” e “não aguento mais” era uma mulher de 73 anos que usava meias de compressão e um aplique de coque grisalho no cabelo.

Com uniforme e luvas azuis, dona Azul, como é conhecida a sergipana Maria Alaíde, fazia um de seus treinos semanais, que acontecem toda terça e quinta há mais de um ano no local.

Ela faz parte de uma iniciativa da Amuv (Associação de Mulheres Unidos Venceremos) e da Casa Mestre Ananias para estimular a socialização e melhorar a autoestima de mulheres idosas do bairro.

“Apesar de ser um bairro central e muito movimentado, a gente tem uma população grande de idosos, que não é enxergada porque não está transitando pelas ruas”, diz Wellinton.

O professor, convidado pela Amuv para formular um projeto direcionado aos idosos, fez um levantamento informal com movimentos sociais da região para entender as necessidades dessa população. A solidão e a falta de movimento apareceram como questões centrais.

Wellinton divulgou o projeto em espaços como o Núcleo de Convivência de Idosos da Paróquia Nossa Senhora da Achiropita. Foi lá que dona Azul aderiu à ideia.

“Mudou tudo na minha vida”, diz a sergipana, que em mais de 70 anos de vida nunca imaginou que aprenderia a dar um soco. “Sou outra mulher, parece que tenho 15 anos. Tenho mais força, mais coragem, mais ânimo.”

Batizado de Geração Nocaute, o projeto recebe no máximo 15 alunas por vez devido à limitação de espaço e verba. O professor faz o serviço de graça, e as alunas também não pagam nada. A Casa Mestre Ananias, centro cultural do bairro, cede o espaço.

Encerrado o treino, Azul começa o dia de trabalho. Como cuidadora de idosos, auxilia uma mulher de 77 anos. Apesar da rotina extenuante, diz se cansar menos desde que começou as aulas.

Além disso, conta, após seis meses de treino sumiram os sintomas de artrite e artrose e as dores que sentia nos joelhos, ombros e mãos. “Nas mãos, os dedos estavam ficando tortos. Já não estão mais. Tem um defeitozinho, mas é menos”, diz.

Wellinton afirma observar benefícios em todas as alunas. “Muitas tinham problemas comuns da idade. Artrose, artrite, dificuldade para agachar, levantar o braço, andar.”

O boxe, explica o professor, exige movimentos que fogem do natural: andar com as pernas afastadas, recuar, usar mais o lado esquerdo. Isso força o cérebro a memorizar sequências e obriga quem é destro a acionar o lado que normalmente ignora.

O resultado é nítido, ele diz. As alunas ganharam coordenação motora e equilíbrio, além de alívio nas dores. “Trabalhando alongamento, postura e movimentos conscientes, elas passaram a entender o próprio corpo”, afirma.

O boxe praticado por idosos tem potencial para melhorar também o condicionamento cardiovascular, a agilidade e a força muscular, diz o profissional de educação física Rondinei Silva Lima, coordenador do Grupo de Interesse em Atividade Física e Longevidade da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

“O processo de envelhecimento vem com a diminuição de todas essas aptidões. O boxe traz ganhos em todas elas e costuma ser considerado uma atividade bastante completa”, afirma. Lima diz, ainda, que trabalha o esporte com pacientes com doença de Parkinson em diferentes estágios.

Além dos benefícios físicos, o especialista destaca o impacto do boxe na saúde mental. As aulas coletivas combatem o isolamento social, comum no envelhecimento, e geram senso de pertencimento.

“Elas [alunas de boxe] se sentem lutadoras. E quando a pessoa melhora o condicionamento, consegue ir ao supermercado sozinha, fazer as coisas em casa sem ajuda. Tudo isso melhora o psicológico”, diz.

A autoestima das alunas aumentou ainda mais depois que elas participaram de um campeonato para alunos de boxe, em fevereiro. A intenção era que elas se sentissem mais confiantes em relação ao que tinham aprendido até então.

Antes da competição elas fizeram uma série de exames com um médico particular. Segundo Lima, o ideal é passar pela avaliação de um profissional de educação física ou gerontologia antes de começar a treinar. O maior risco, diz o educador físico, é cardiovascular.

“O boxe empolga, e quando a pessoa se empolga, ela costuma fazer com alta intensidade. A frequência cardíaca sobe, a pressão também”, afirma.

Este era o medo de Wellinton no dia do campeonato —de que ouvir 300 pessoas torcendo por ela fosse emoção demais para Azul. Mesmo com medo, ela entrou no ringue e encontrou ânimo.

“Pensei: Vou meter o pau, se ela quebrar a minha cara eu vou quebrar a cara dela”, brinca. As oponentes, que eram atletas profissionais, não chegaram a atacar as alunas de Wellinton e apenas se defenderam.

Azul diz que se mover dessa forma a deixou mais confiante em todas as áreas da vida. “Não adianta ficar dentro de casa fazendo crochê. Não, minha filha, não pode parar, não. Se parar, morre.”



Folha SP

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