Adultos recebem diagnóstico de autismo com conscientização – 01/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Homem de barba e óculos sorri olhando para o lado, em frente a uma estante branca cheia de livros e objetos. Na estante, há uma placa com a frase

Pesquisas recentes confirmam que o número de diagnósticos de TEA (transtorno do espectro autista) em adultos teve um salto expressivo nos últimos anos. O é fenômeno explicado pela melhoria na capacidade de identificação, mudanças nos critérios diagnósticos e redução do estigma, dizem especialistas ouvidos pela Folha.

Publicado ano passado, um levantamento feito com adultos nos Estados Unidos, por exemplo, mostrou que entre 2011 e 2022 o número de pessoas com idade entre 26 e 34 anos que receberam o diagnóstico de TEA aumentou 450%.

Já o relatório publicado em 2025 no The Lancet Psychiatry sobre o tema estima que uma em cada 127 pessoas no mundo, em 2021, estava no espectro autista —53,1% a mais que o indicado em 2019, quando os dados apontavam um TEA a cada 271 neurotípicos.

Os pesquisadores dos dois trabalhos afirmam que os resultados podem ser atribuídos a melhorias nos métodos de vigilância e acesso à informação.

José Guilherme Giocondo, médico psiquiatra da infância e adolescência e membro da equipe da Unidade de Bem Estar do Einstein Hospital Israelita, concorda: “Não aumentou a prevalência do autismo, o que cresceu foi o diagnóstico e as informações com maior qualidade.”



Não aumentou a prevalência do autismo, o que cresceu foi o diagnóstico e as informações com maior qualidade

A neuropsicóloga Thais Barbisan reforça que, apesar da descoberta do autismo tardia ser cada vez mais presente, é importante deixar claro que o TEA não começa na vida adulta. “A pessoa nasce com esse funcionamento. É comum principalmente nos casos de nível 1 de suporte, em que sintomas são mais sutis”, afirma Barbisan.

Nessa situação, a pessoa desenvolve estratégias de adaptação, confundindo ou mascarando o quadro ao longo da vida. Foi o caso de Thomás Levy, 41, consultor de comunicação corporativa e um dos idealizadores da ONG Octo, dedicada a pessoas com deficiências ocultas.

Levy relata que buscou o diagnóstico apenas em 2019, após alerta de uma colega de trabalho. Antes disso, conviveu com um histórico de dificuldades em socialização, com bastante deslocamento na vida escolar. “Eram as décadas de 1980, 1990. O que se entendia sobre neurodivergência, sobre autismo, era radicalmente diferente do que sabemos agora”, observa.

O consultor passou por diversas consultas multiprofissionais e testes antes de estabelecer que tinha mesmo um TEA de nível 1 de suporte com altas habilidades. “Teve um lado de luto e um de libertação, no sentido de eu [poder dizer que] não estou quebrado, não há nenhuma coisa intrinsecamente errada comigo, é uma característica do autismo que não posso alterar, mas posso trabalhar para que tenha mais qualidade de vida”, diz Levy.



Teve um lado de luto e um de libertação, no sentido de eu [poder dizer que] não estou quebrado, não há nenhuma coisa intrinsecamente errada comigo, é uma característica do autismo que não posso alterar, mas posso trabalhar para que tenha mais qualidade de vida

A médica Fabricia Signorelli, mestre em distúrbios do desenvolvimento e psiquiatra no Ambulatório de TDH no Adulto da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), destaca que o diagnóstico determina não só a compreensão que o indivíduo tem de si ou que a família tem dele, mas o tratamento.

Antes de 2013, o espectro autista era dividido em nomenclaturas diversas, mas foi unificado pelo Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais na DSM-5, que criou um diagnóstico mais heterogêneo e dimensional.

Tratamento precoce

Diagnosticar o autismo na infância tem muita diferença. Quando feito de forma precoce, antes dos 6 anos, a identificação permite aplicação de terapias que levam ao desenvolvimento de habilidades sociais, comunicação e autonomia, podendo até melhorar o nível de suporte dos casos mais graves (níveis 2 e 3).

“Toda intervenção que a gente faz nessa fase vai surtir mais e melhor efeito”, avalia Giocondo.

A habilidade da criança de modificar e criar novas conexões cerebrais é chamada de neuroplasticidade. “O cérebro infantil tem uma capacidade maior de adaptação a partir dos estímulos recebidos. Quanto mais é estimulado, mais se adapta ao ambiente e melhor responde”, diz Barbisan.

Signorelli destaca que aproveitar a janela de oportunidade terapêutica da infância permite preservar a funcionalidade da saúde mental dos indivíduos com TEA, evitando a sobrecarga socioemocional quando crescem.

“E quando vai acontecer o diagnóstico? No início da vida adulta, porque as demandas sociais impostas pelo ambiente passam a ser maiores, as dificuldades ficam evidentes”, observa a psiquiatra.

Para o adulto com TEA, esse cenário acaba sendo muito favorável à instalação de depressão, ansiedade e medo de enfrentamento social. Pode também levar a “evasão escolar e até dificuldade na manutenção de empregos e nos seus relacionamentos pessoais”, reforça Signorelli.

Saber, a qualquer tempo, porém, faz diferença. “A beleza do diagnóstico é fornecer explicações para aquilo que talvez tenha sido uma grande dificuldade, questões até de autoestima, como ‘sempre fui diferente; nunca tive muitos amigos’ ou ‘sofria bullying’”, diz Giocondo.

A jornalista Debora Saueressig, 48, mãe de uma criança autista, recebeu o próprio diagnóstico de TEA há apenas dois anos e afirma que foi o “fim de uma busca por respostas” —quem percebeu os sintomas nela foram outras mulheres autistas.

“Gostaria muito de ter sabido antes. Na infância, para ter sido menos taxada de esquisita. Na adolescência, para ter sido menos taxada de antipática, inacessível, deprimida. Mas chegou só na fase adulta e é com essa realidade que trabalho hoje”, relata Saueressig.

A camuflagem do autismo acontece em meninos e meninas, mas Signorelli conta que é mais comum no gênero feminino, que desde a infância é levado a “desenvolver estratégias adaptativas”, como imitar o comportamento de outras garotas.

A cantora e compositora Bea Duarte, 28, recebeu o diagnóstico de TEA aos 26 anos, só depois que fãs no espectro autista comentaram em seus posts que as letras dela “representavam exatamente a vivência de uma pessoa autista”.

“Estudos da mente autista durante muito tempo só eram feitos em homens brancos, tem dez anos que começaram a estudar o espectro autista em mulheres, por isso tem tantas diagnosticadas só agora. Mas só de saber que não sou tão diferente assim, que é apenas um jeito diferente de ver o mundo, já deixa tudo mais calmo”, pondera Duarte.

Barbisan lembra que “durante muito tempo o autismo foi associado a um perfil muito específico, o da pessoa que não olha nos olhos e tem um comportamento mais frio.

“Hoje a gente sabe que não é assim, tem informação que circula em redes sociais e muita gente se identificando, mas é importante ter cuidado. Nem toda manifestação é um diagnóstico, precisa ser feito de forma criteriosa”, diz Barbisan.

A identificação e o tratamento de TEA são multidisciplinares e podem envolver psicólogos, neuropsicólogos, neurologistas, pediatras, psiquiatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais entre outros.



Folha SP

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