Novas pistas sobre o declínio da fertilidade feminina – 14/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

Mãos seguram uma seringa e uma pasta azul aberta sobre mesa. Na pasta, há um modelo anatômico do útero feminino e páginas plásticas com imagens microscópicas de embriões em diferentes estágios de desenvolvimento.

Cientistas estão avançando na compreensão de um dos principais mistérios da reprodução humana: por que os óvulos das mulheres se deterioram com a idade?

Os aspectos gerais são bem conhecidos —o famoso “relógio biológico” aumenta o risco de aborto espontâneo e infertilidade, frequentemente causados por óvulos com número errado de cromossomos, as estruturas que carregam o DNA.

Pesquisadores que apresentaram seu trabalho na conferência Fertility 2026, em Edimburgo, na Escócia, afirmam ter identificado como a redução de uma proteína específica ao longo da vida das mulheres pode ser uma pista para o problema.

Agata Zielinska, uma das autoras do estudo, que ainda não foi revisado por pares, é cofundadora da empresa de biotecnologia Ovo Labs. A companhia está trabalhando para lançar um ensaio clínico que poderá testar se restaurar essa proteína poderia melhorar a qualidade dos óvulos usados na fertilização in vitro (FIV).

“Se você quer desenvolver estratégias para melhorar a qualidade dos óvulos e criar formas clínicas de realmente ajudar casais a conceberem, é preciso entender o que está dando errado no nível molecular”, diz Zielinska.

Cientistas não envolvidos na pesquisa alertam que o trabalho é um primeiro passo promissor e que provavelmente não será a única explicação para erros cromossômicos. Mas contribui para um crescente conjunto de estudos que investigam questões fundamentais sobre o desenvolvimento dos óvulos, o que poderia levar a novas opções e maiores taxas de sucesso na reprodução humana.

O descompasso entre a janela biologicamente ideal para a reprodução e a tendência social de adiar a maternidade representa um desafio angustiante para muitas pessoas que tentam formar uma família.

No final do ano passado, uma equipe separada de cientistas demonstrou, na revista Nature Aging, uma forma de simular o processo de envelhecimento em óvulos de camundongos, uma ferramenta que permite aos pesquisadores investigar sistematicamente as falhas moleculares que levam a anormalidades cromossômicas —e identificar maneiras de combatê-las.

“Estamos bem longe de dizer que o envelhecimento reprodutivo não é mais um grande problema. O objetivo de curto prazo seria estender [a janela reprodutiva] de três a cinco anos”, afirma Binyam Mogessie, professor de biologia molecular, celular e do desenvolvimento na Universidade Yale, que liderou o artigo na Nature Aging e está planejando testar medicamentos que possam melhorar a viabilidade dos óvulos. “Seria extremamente consequente”, diz.

Lacunas no conhecimento sobre a reprodução feminina

A reprodução feminina está cheia de enigmas.

Os homens produzem espermatozoides ao longo de toda a vida. As mulheres, por outro lado, nascem com seu estoque vitalício de oócitos —as células precursoras que amadurecem em óvulos. No útero, um feto tem cerca de 7 milhões deles nos ovários, mas ao nascer, restam apenas cerca de 1 milhão. Esses oócitos que sobrevivem à atrito ficam congelados em um estado de pausa, até a ovulação anos ou décadas depois.

“Isso, é claro, cria grandes problemas no nível cromossômico, porque eles ficam meio que esperando por anos nos humanos, o que é insano de certa forma”, diz Paula Cohen, diretora do Centro de Ciências Reprodutivas da Universidade Cornell.

Em uma das etapas finais da meiose, cópias pareadas de cromossomos devem se separar de forma ordenada, deixando um óvulo com uma cópia de cada cromossomo. A outra metade do material genético é descartada —”Por que eles ejetam metade de sua carga?” Cohen pergunta. “É muito estranho.”

O problema é que durante a pausa prolongada, que dura décadas, as cópias pareadas de cromossomos em cada oócito podem se separar prematuramente —o que pode levar a um número excessivo ou insuficiente deles no óvulo. Essa falha no processo, conhecida como coesão cromossômica, pode levar à aneuploidia —o número errado de cromossomos em um óvulo— uma das principais causas de infertilidade e falha na FIV.

Os cientistas têm se concentrado cada vez mais em desvendar todas as etapas moleculares do que dá errado com o complexo de coesão. Mas no novo estudo, realizado com células de camundongos e humanas, Zielinska e colegas descobriram uma queda nos níveis da proteína chamada Shugoshin, palavra japonesa para “espírito guardião”, que protege as proteínas de coesão que mantêm os cromossomos no lugar.

“A coesão fica mais vulnerável, e os cromossomos têm maior probabilidade de se desintegrar”, diz Melina Schuh, diretora do Instituto Max Planck de Ciências Multidisciplinares, que liderou o estudo. Schuh também cofundou a Ovo Labs e faz parte da equipe que tenta traduzir essas descobertas em intervenções que possam melhorar a fertilidade.

Michael Lampson, professor de biologia da Universidade da Pensilvânia que não participou da pesquisa, diz que grande parte do foco na área tinha sido na perda, com o envelhecimento das mulheres, de proteínas chamadas coesinas, diretamente envolvidas na manutenção da coesão cromossômica. O novo estudo destaca o papel potencial de uma proteína diferente que protege essas proteínas.

“Quando você já tem 40 anos, não pode recuperá-las. Mas o que resta, faz sentido que, se você não tem muitas proteínas coesinas restantes, você precisa fazer um bom trabalho protegendo as que tem”, afirma Lampson.

Quando os cientistas restauraram a produção da proteína ao microinjetar RNA mensageiro que codifica a proteína protetora Shugoshin, descobriram que conseguiram aumentar o número de óvulos com cromossomos que não estavam se desintegrando prematuramente —de cerca de metade dos óvulos para quase três quartos.

“Eles observam uma recuperação parcial. Isso indica que há uma contribuição”, diz Mogessie. Ele acrescenta que trabalhos futuros também teriam que mostrar se aumentar a produção da proteína realmente reverteria uma perda de coesão que já ocorreu com o envelhecimento, ou simplesmente protegeria o óvulo contra os efeitos futuros do envelhecimento.

Cohen concorda que, embora os esforços para aumentar a coesão entre cromossomos sejam um alvo válido, isso não resolverá o problema de todas as mulheres que tentam engravidar.

“Não sabemos todas as respostas. Se a coesão é crítica, e podemos reparar a coesão em um grande número de mulheres, então podemos melhorar suas chances de ter uma gravidez bem-sucedida”, diz Cohen. “Isso não resolverá o problema de todo mundo… mas estamos muito mais avançados do que há apenas 10 anos.”



Folha SP

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