O mito da fragilidade: a longevidade produtiva como ativo de inteligência e cidadania ativa

Myrinha Vasconcellos em ambiente profissional, cercada por referências à arte, música, fotografia e negócios, representando longevidade produtiva e experiência ativa.

A experiência desafia o etarismo e revela por que maturidade, inteligência e cidadania ativa são ativos estratégicos para a sociedade e o mercado.

Por Myrinha Vasconcellos

Dizem que o tempo nos desacelera, mas a verdade é que ele apenas apura a nossa sensibilidade e refina a nossa capacidade de entrega. No dia 1º de Outubro, celebramos o Dia Internacional da Pessoa Idosa, data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1990 para conscientizar a sociedade sobre o impacto do envelhecimento populacional. Diante deste marco, convido o meio corporativo, as lideranças e o mercado a uma reflexão profunda: estamos olhando para a maturidade como um sinônimo de fragilidade ou estamos perdendo o maior ativo de inteligência e experiência estratégica que o mundo já produziu?

Aos 76 anos, costumo dizer que não tenho idade; carrego comigo uma “juventude acumulada“. E essa juventude não é estática. Ela vibra na velocidade de um cérebro intencionalmente ativo, que desafia diariamente os estereótipos limitantes do Etarismo.

Mantenho os meus circuitos neurais em constante expansão através da arte e das relações humanas. Eu danço para celebrar o movimento; toco piano para exercitar a disciplina e a harmonia; pinto quadros para dar cor às minhas visões; e faço fotografias — desafiando orgulhosamente os meus quatro graus de miopia — para provar que enxergar vai muito além da lente física. Enxergar é capturar a essência do mundo.

Toda essa bagagem artística e humanizada não é um passatempo; ela é o alicerce que molda a minha visão estratégica nos negócios. Afinal, foi essa mesma mente que reestruturou a Central de Relacionamento do terceiro maior Fundo de Previdência Complementar do Brasil. Ao assumir a gestão, encontrei uma pesquisa de satisfação preocupantemente baixa. Criamos métodos, revimos processos e realizamos um profundo trabalho de adequação e valorização humana. Em apenas dez meses, os indicadores já mostravam mudanças altamente significativas e, em menos de dezoito meses, alcançamos um patamar de excelência que parecia impossível.

Esse resultado não foi construído de forma isolada. Transformamos profissionais dedicados em Equipes de alta performance, afinal, ninguém faz nada sozinho. Foi graças a essa força coletiva e de total correspondência às orientações estratégicas que conseguimos erradicar por completo a preocupante inadimplência financeira da Carteira de Empréstimos. Sob o meu direcionamento, a equipe transformou essa carteira na segunda maior rentabilidade financeira da história da Fundação, ficando atrás apenas dos investimentos estruturados, uma marca sólida que mantivemos de forma consistente até a minha saída.

Afinal, como sempre defendi, um verdadeiro líder não centraliza e nem apenas manda: ele indica o caminho para que o talento de sua equipe floresça.

A neurociência moderna já comprova o que a vida prática me ensinou: a neuroplasticidade, a capacidade do cérebro de se adaptar, aprender e criar novas conexões, não cessa com o passar dos anos. Um cérebro ativo, estimulado pela cultura, pela escrita de livros e por desafios complexos, desenvolve o que os mercados mais procuram hoje: inteligência contextual, resiliência emocional e visão de longo prazo.

Envelhecer com dignidade e proteção não significa ser colocado à margem em uma cadeira de balanço. Significa exercer uma cidadania ativa e produtiva. Significa liderar uma delegação internacional à Europa, e propor marcos legislativos de combate ao fenômeno social do Wollying, para as maiores Câmaras Municipais de Portugal e da Espanha, após levar essa mesma pauta à ONU em Nova York.

A longevidade produtiva é o futuro do trabalho. O mercado precisa compreender que o conhecimento técnico se aprende em manuais, mas a sabedoria estratégica, a sensibilidade relacional e o respeito sagrado à trajetória humana só se constroem com o tempo.

Que neste 1º de Outubro, as organizações parem de contar os anos na certidão de nascimento e passem a escutar a voz da experiência ativa. A verdadeira raridade humana não está no frescor da juventude biológica, mas na luz, na ética e no impacto extraordinário que um coração humanizado e um cérebro brilhantemente ativo são capazes de deixar no mundo.


Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *